Archive for the 'reflexão para crianças' Category

As janelas douradas

Delicadeza

Deves tratar as pessoas com delicadeza, de contrário elas afastar-se-ão de ti.
Lembra-te sempre: um pequeno gesto afectuoso pode ter um grande significado.

 

 

As janelas douradas

O menino trabalhava arduamente durante todo o dia, no campo, no estábulo e no armazém, pois os pais eram fazendeiros pobres e não podiam pagar a um ajudante. Mas, quando o sol se punha, o pai deixava-lhe aquela hora só para ele. O menino subia ao alto de um morro e ficava a olhar para um outro morro, distante alguns quilómetros. Nesse morro, via uma casa com janelas de ouro e de diamantes. As janelas brilhavam e reluziam tanto que ele era obrigado a piscar os olhos. Mas, pouco depois, ao que parecia, as pessoas da casa fechavam as janelas por fora, e então a casa ficava igual a qualquer outra casa. O menino achava que faziam isso por ser hora de jantar; então voltava para casa, jantava e ia deitar-se. Um dia, o pai do menino chamou-o e disse-lhe:

— Tens sido um bom menino e ganhaste um dia livre. Tira esse dia para ti; mas lembra-te: tenta usá-lo para aprenderes alguma coisa boa.

O menino agradeceu ao pai e beijou a mãe. Em seguida partiu, tomando a direcção da casa das janelas douradas.

Foi uma caminhada agradável. Os pés descalços deixavam marcas na poeira branca e, quando olhava para trás, parecia que as pegadas o seguiam, fazendo-lhe companhia. A sombra também caminhava ao seu lado, dançando e correndo, tal como ele. Era muito divertido.

Passado um longo tempo, chegou ao morro verde e alto. Quando subiu ao topo, lá estava a casa. Mas parecia que haviam fechado as janelas, pois ele não viu nada de dourado. Aproximou-se e sentiu vontade de chorar, porque as janelas eram de vidro comum, iguais a qualquer outra, sem nada que fizesse lembrar o ouro.

Uma mulher chegou à porta e olhou carinhosamente para o menino, perguntando o que ele queria.

— Eu vi as janelas de ouro lá do nosso morro — disse ele — e vim de propósito para as ver de perto, mas elas são de vidro!

A mulher meneou a cabeça e riu-se.

— Nós somos fazendeiros pobres — disse — e não poderíamos ter janelas de ouro. E o vidro é muito melhor para se ver através dele!

Convidou o menino a sentar-se no largo degrau de pedra e trouxe-lhe um copo de leite e uma fatia de bolo, dizendo-lhe que descansasse. Chamou então a filha, que era da idade do menino; dirigiu aos dois um aceno afectuoso de cabeça e voltou aos seus afazeres.

A menina estava descalça como ele e usava um vestido de algodão castanho, mas os cabelos eram dourados como as janelas que ele tinha visto e os olhos eram azuis como o céu ao meio-dia. Passeou com ele pela fazenda e mostrou-lhe o seu bezerro preto com uma estrela branca na testa; ele falou do bezerro que tinha em casa, e que era castanho-avermelhado com as quatro patas brancas. Depois de terem comido juntos uma maçã, e se terem tornado amigos, ele fez-lhe perguntas sobre as janelas douradas. A menina confirmou, dizendo que sabia tudo sobre elas, mas que ele se tinha enganado na casa.

— Vieste numa direcção completamente errada! — exclamou ela. — Vem comigo, vou-te mostrar a casa de janelas douradas, para ficares a saber onde fica.

Foram para um outeiro que se erguia atrás da casa, e, no caminho, a menina contou que as janelas de ouro só podiam ser vistas a uma certa hora, perto do pôr-do-sol.

— Eu sei, é isso mesmo! — confirmou o menino.

No cimo do outeiro, a menina virou-se e apontou: lá longe, num morro distante, havia uma casa com janelas de ouro e de diamantes, exactamente como ele tinha visto. E quando olhou, o menino viu que era a sua própria casa!

Apressou-se então a dizer à menina que precisava de se ir embora. Deu-lhe a sua melhor pedrinha, a branca com uma lista vermelha, que trazia há um ano no bolso. Ela deu-lhe três castanhas- da-índia: uma vermelha acetinada, outra pintada e outra branca como leite. Ele deu-lhe um beijo e prometeu voltar, mas não contou o que descobrira. Desceu o morro, enquanto a menina ficava a vê-lo afastar-se, na luz do sol poente.

O caminho de volta era longo e já estava escuro quando chegou a casa dos pais. Mas o lampião e a lareira luziam através das janelas, tornando-as quase tão brilhantes como as vira do outeiro. Quando abriu a porta, a mãe veio beijá-lo e a irmãzinha correu a pendurar-se-lhe ao pescoço; sentado perto da lareira, o pai levantou os olhos e sorriu.

— Tiveste um bom dia? — perguntou a mãe.

— Sim! — o menino passara um dia óptimo.

— E aprendeste alguma coisa? — perguntou o pai.

— Sim! — disse o menino. — Aprendi que a nossa casa tem janelas de ouro e de diamantes.

William J. Bennett
O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996

 

O Senhor Palha

Generosidade

Sempre que ajudares alguém, procura passar despercebido.
Quanto menos te evidenciares,
mais a tua ajuda terá valor.

 

O Senhor Palha

Conto japonês

Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo. Ora o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha. Era por esse motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha.

Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar:

— A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há- de trazer-te uma grande fortuna.

O Senhor Palha apanhou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e que o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu a pensar: “Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?” Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra. Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fio de palha.

“Bom”, pensou ele, “uma palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu o apanhasse, é melhor guardá-lo.”

E lá foi ele, com a palha na mão.

Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou afastá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele. “Muito bem”, pensou ele. “Se não queres ir embora, fica comigo.” Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda. Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou a descer a rua com a libélula presa à palha. Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho pequenino, para vender as suas flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar. Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se.

— Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor!

“Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte. Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que ficará certamente mais feliz com um pequeno presente.” E deu ao menino a libélula presa à palha.

— É muita bondade sua — disse a florista. — Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa. Aceita?

O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que tinha acontecido.

— Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz. — Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer.

— Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha. — Não tenho nada de valor mas, se quiser dar-lhe esta rosa ela é sua.

O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa.

— Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem. — É só o que posso dar-lhe em troca.

O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas. Em seguida, encontrou um vendedor ambulante a puxar uma pequena carroça.

— Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto. — Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água.

— Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha. — Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas.

O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo:

— O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca.

E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho, com o rolo de seda debaixo do braço.

Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha.

— Onde arranjou essa seda? — gritou ela. — É justamente aquilo de que estou à procura. Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real.

— Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda — disse o Senhor Palha.

A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte.

— O senhor é muito generoso — disse sorrindo. — Por favor, aceite esta jóia em troca.

A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.

“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Sinto-me contente.”

Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz. Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico.

Mas a riqueza não o modificou. Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam. Diziam que a sua sorte tinha começado com um fio de palha, mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade?

William J. Bennett
O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996

O caminho para a verdade

Sinceridade

Procura ser sempre sincero
contigo e com os outros.
Aquele que tem
por hábito mentir
acabará sozinho.

O caminho para a verdade

A chuva que caía há dias parou finalmente nessa tarde. Um suspiro de alívio percorreu a turma toda. Os rapazes sabiam agora que o jogo de futebol, há tanto ansiosamente esperado, poderia ter lugar e já não seria cancelado por causa do mau tempo.

— Bom, às três horas no campo de jogos, mas em ponto! — diz Matias para Ricardo, ao irem juntos para casa no fim das aulas.

Ricardo abana a cabeça e murmura algo de incompreensível de cada vez que Matias dá pontapés nas pedras do caminho para ensaiar golos. Tenta acertar num tronco, numa pedra, ou até numa determinada folha de um ramo. Ricardo já não suporta esta mania. É que Matias tem tudo menos boa pontaria.

As suas brincadeiras com as pedras já tinham causado aborrecimentos que chegassem. Matias achava que era precisamente por isso que devia treinar mais. Como se dar pontapés a pedras fosse de uma importância vital!

Ainda Ricardo não tinha acabado de pensar e já se ouvia o barulho de vidros partidos: a última pedra de Matias tinha voado direitinho à janela da entrada do Sr. Gilberto. Ricardo ficou a olhá-la petrificado.

— O melhor agora é fugir! — ouviu Matias sibilar. E, com um grande salto, o autor da asneira desapareceu a correr pela rua abaixo.

Ricardo ainda estava a olhá-lo, confuso, quando sentiu que alguém o agarrava pela gola e o puxava com força. À sua frente, furioso e ofegante, estava o senhor Gilberto.

— Até que enfim que te apanhei, rapazinho! Espera lá, que te vou levar já ao teu pai, e vais ver o que te vai acontecer!

Às três horas em ponto, Matias apareceu no campo de jogos mas, por mais que procurasse Ricardo, não o encontrou.

“Afinal sempre o apanharam”, pensou Matias “e, ou assumiu ele a culpa, ou não o deixaram falar. Já é costume. O pai dele, às vezes, é muito severo.”

Matias ficou de pé, na tribuna, a olhar para o campo vazio. Combinavam quase sempre encontrar-se uma hora antes, para arranjarem um bom lugar. Mas, de um momento para o outro, Matias perdeu o entusiasmo pelo jogo. Pensava no vidro da janela, em Ricardo, e a má consciência atormentava-o. Devagar e de cabeça baixa, abandonou o campo e encaminhou-se, hesitante, para a casa dos pais de Ricardo.

Foi o pai em pessoa que lhe abriu a porta. Irado como estava, nem sequer deixou Matias falar, dizendo-lhe asperamente:

— É inútil, rapaz! O Ricardo está fechado no quarto, de castigo, a fazer os trabalhos de casa… Ele que te conte tudo na segunda-feira, na escola. Já só faltam dois dias e meio — e voltou para dentro, fechando a porta com força.

Matias voltou a tocar à campainha insistentemente e, desesperado, acabou por bater à porta com os punhos. Não podia aceitar uma injustiça daquelas. Mas ninguém se mexeu dentro de casa.

Os pensamentos atropelavam-se-lhe na cabeça.

“Muito bem”, pensava ele, “então vou contar-lhe a verdade pelo telefone. E se ele também não me deixa falar pelo telefone?”

De repente, Matias tem uma ideia e volta a correr para casa. A mãe ainda não tinha regressado do trabalho. Procurou papel de carta e um envelope, escreveu a toda a pressa umas linhas no papel e levou a carta à estação dos correios mais próxima. Mostrou ao empregado o dinheiro que lhe sobrava da semanada e perguntou:

— Chega para mandar uma carta por correio-expresso para a cidade?

— Chega e sobra, rapaz.

— E a carta é entregue agora mesmo?

O empregado olhou-o sorrindo e respondeu:

— Há fogo? Não tenhas medo, que estás com sorte. A carta pode chegar ao destino em meia-hora. Ex-cepcio-nal-mente!

Matias entregou a carta, feliz.

Uma meia hora mais tarde, o pai de Ricardo abria uma carta, entregue por um estafeta motorizado. E, admirado, leu:

Caro Sr. Pinto,

Venho, por este meio, provar-lhe que a verdade afinal consegue entrar em sua casa. Fui eu que parti o vidro da janela e vou pagá-lo com a minha próxima semanada.

Espero pela resposta em frente à sua casa.

Com os meus cumprimentos

Matias

A resposta que o pai de Ricardo mandou a Matias pesava quase 40 kg e vinha a rir-se. O pai tinha mandado o Ricardo. Assim que viu o amigo sentado à espera na soleira da porta, disse:

— Matias, tu és o maior maluco do mundo! O que tu fizeste… bem, nunca hei-de esquecer.

— Ora — resmungou Matias — não fales tanto, senão ainda perdemos também a segunda parte do jogo.

Eva Rechlin

Jutta Modler (org)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
tradução e adaptação

As palmeiras são nossas!

Responsabilidade

Existem no mundo muitas pessoas que sofrem e não recebem
qualquer auxílio.
Pensa nas formas possíveis de ajudar aqueles que necessitam.

 

As palmeiras são nossas!

O Dr. Magdy e eu saímos da luz tremeluzente mas suave da floresta de palmeiras para o sol forte, passámos junto das bananeiras e das últimas cabanas, pela passadeira de orla florida, e fomos ter onde acabava a terra fértil e começa a terra morta. Onde acabavam os jardins floridos e começava a areia seca. Subimos até ao deserto para, lá em cima, visitar, na superfície infinita, as escavações das pirâmides dos antigos faraós, resgatadas da areia.

Regressámos ao fim de algumas horas. Parámos na primeira e única cabana das redondezas e saímos do carro. A cabana estava à sombra de três palmeiras particularmente bonitas. Magdy quis fotografá-las. Focou a máquina e fez clic. Tudo o resto era silêncio.

Nesse silêncio que pairava no ar, entrou, de repente, uma menina pequena. Com cabelos desgrenhados e movimentos ágeis, descalça, escura e magra, aproximou-se silenciosamente de Magdy.

— Queres fotografar as palmeiras, mas para isso tens de pagar — disse, quando se pôs à frente dele.

Olhava-o com um olhar desafiador e estendia a mão na sua direcção.

— Vai-te embora! — disse Magdy, que mediu a distância com passadas, carregou no botão e depois passou para o outro lado da estrada.

A menina esfarrapada e frágil atravessou-se-lhe no caminho.

Ele afastou-a para o lado como a um cão incómodo.

Ela seguiu-o e falava-lhe:

— As palmeiras são nossas — dizia ela, cada vez mais insistente e com a voz subindo de tom. — Se queres tirar-lhes uma fotografia, tens de pagar.

— Vai à fava! — repetiu ele.

A pequena olhou-o, furiosa, e repetiu com uma voz estridente:

— Tens de pagar. As palmeiras são nossas! São as nossas palmeiras.

Magdy, até aí excessivamente paciente, não suportou aquele tom.

— É atrevida e desavergonhada — disse, voltando-se para mim.

Com poucas palavras enxotou a criança, o que a exaltou ainda mais.

Eu não compreendia o que diziam, porque ambos usavam palavras pouco habituais e limitavam-se a lançá-las à cara um do outro. Contudo, percebi uma frase que a menina disse, porque, essa frase, disse-a devagar, palavra a palavra, cheia de desprezo e de raiva.

— Vocês são avarentos, como todos os ricos. Avarentos e maus!

Magdy tirou mais uma fotografia e nessa ficou a menina, pois tinha recuado para junto das palmeiras.

Mal se ouviu o disparo da máquina, ela recomeçou de novo, com a voz a tremer de raiva:

— São as nossas palmeiras! E eu, eu… Oh, vocês, os ricos!…

Pareceu-me que, no gaguejar selvático, também transparecia medo.

Acreditaria ainda aquela criança na antiga crença pagã de que, com a imagem, também se obtinha o domínio do objecto? Perguntei- lhe:

— Tens medo por teres ficado na fotografia?

A menina olhou-me admirada e respondeu-me calmamente:

— Não, não tenho medo nenhum.

E, sem mais uma palavra, regressou à cabana.

Segui-a, preocupada, e quis entrar, mas a menina tinha trancado a porta por dentro. Não abriu quando bati.

Magdy também se aproximou. Franziu o sobrolho quando se ouviu, saído da cabana, um fraco gemido de recém-nascido.

— Uma criança doente! — disse ele, e pediu à menina que abrisse.

Mas a porta permaneceu fechada. E nem mesmo se abriu a um segundo pedido nosso.

— E a mãe que não está junto do filho doente… — disse eu.

— Ela está no campo. Tem de trabalhar.

Em seguida, através da porta, Magdy disse à menina que era médico e que podia ajudar.

Ela não respondeu.

Ficámos parados, indecisos. Após alguns momentos, ouvimos a menina dizer para a criança:

— Vais morrer e a mãe vai bater-me porque não sei pedir esmola. Os estrangeiros têm muito dinheiro mas não nos dão nada. E as palmeiras até são nossas!

Ilse van Heyst

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
tradução e adaptação

Uma estrela subiu ao céu

Compaixão

Não desprezes aqueles
a quem a vida desfavoreceu,
mas ajuda-os no que estiver
ao teu alcance.
Cada pessoa tem em si algo
de bom que é preciso
fazer desabrochar.

 

Uma estrela subiu ao céu

Estava no chão do recreio, no meio da sujidade. No fim do intervalo grande, Regina pegou nela. Era uma bolacha de Natal em forma de estrela, escura e com uma espessa cobertura de açúcar.

Na sala, Regina pôs a estrela na secretária, em frente da professora, a D. Mariana.

— Encontrei-a no recreio — disse.

— Alguém a deitou fora — disse Carolina.

— Está suja e já ninguém pode comê-la. — disse Francisco.

— Se alguém tivesse fome de verdade, comia-a — assegurava Regina.

— Ugh! Eu nunca iria metê-la à boca — disse Francisco.

A D. Mariana, em silêncio, ouviu as crianças durante algum tempo.

— Qual de vocês já teve fome de verdade, uma fome a sério? — perguntou por fim.

Alguns dedos levantaram-se.

— Uma vez, eu tive de ir para a cama sem jantar.

— Num passeio, no Verão, esquecemo-nos do cesto do piquenique.

— Nós fomos visitar a nossa tia Emília, mas ela não nos ofereceu nada para comer.

— E a vossa fome era tão grande que seriam capazes de comer a estrela? — perguntou a professora.

— Não, não era assim tão grande — respondeu Sandra por todos. — Se se comer uma coisa dessas, fica-se doente.

Então, a D. Mariana contou a história do pequeno Sindra Singh, que vive na Índia longínqua e que tem aproximadamente a idade dos alunos da turma B da terceira classe. Todos os dias, Sindra recebe na estação uma mão-cheia de arroz. São aproximadamente 300 grãos. Um dia Sindra contou-os. Come 150, assim que o senhor da estação lhos dá. Mete 100 grãos à boca quando o sol está alto e guarda o resto para a altura em que o sol se põe. Às vezes, faz batota e começa a comer quando o sol ainda está por cima das árvores.

— O que acham? — pergunta D. Mariana às crianças. — Acham que o Sindra Singh comeria esta estrelinha?

— Eu acho que sim — admitiu Regina.

— Mas, aqui, a bolacha estava caída no recreio, no meio da sujidade.

— O meu avô disse-me que não se deve deitar pão fora — contou Matilde. — Ele disse que aprendeu isso na Rússia, quando esteve preso depois da guerra.

— Em África, as pessoas também passam fome — disse Francisco.

— E no Brasil também. Lá, num certo sítio não choveu durante dois anos — contou Carolina.

— O meu tio escreveu da Anatólia — relatou Zeki. — Houve lá um terramoto e as pessoas já não têm quase nada para comer.

Até ali, Maria não tinha dito nada. Agora pedia para falar.

— Ontem à noite, na festa de Natal, cantámos e tocámos para os pais — disse. — Juntámos algum dinheiro. Com ele, podíamos fazer uma encomenda…

Maria hesitou e sentou-se novamente.

— Um embrulho de Natal! — exclamou Francisco.

— Depois de amanhã, parte da igreja um camião para o local do terramoto — disse Carolina. — De certeza que levava o embrulho!

As crianças estavam entusiasmadas. Escreveram no quadro tudo o que queriam meter no embrulho: chocolate e massapão, farinha, açúcar, biscoitos, conservas e, e, e…

Quando tocou para o intervalo, cada criança da turma sabia o que devia comprar nessa tarde, para se mandar a encomenda. Era o único trabalho de casa desse dia.

No fim, a D. Mariana ergueu a estrela.

— Estou enganada, meninos, ou ela está mesmo a brilhar um bocadinho? — As crianças também acharam que estava um pouco mais clara.

A professora voltou para casa relativamente cansada, mas satisfeita. À noite, o telefone tocou. Era o Sr. Mateus, o pai de Francisco, a queixar-se.

O dinheiro tinha sido reunido para a turma. O dinheiro estava pensado para papel e lápis de cor. O dinheiro era para proveito das crianças da classe B. O dinheiro não era para deitar pela janela.

A D. Mariana objectou que tinham sido as crianças a terem a ideia de, no Advento, fazerem algum bem com aquele dinheiro.

O Sr. Mateus disse que a escola não existia para isso.

— Mas, Sr. Mateus, então o Francisco não contou nada da estrela?

— Estrela? — perguntou o Sr. Mateus. — Mas que estrela?

— Bem — disse a D. Mariana um pouco desamparada — a bolacha de Natal. Quando as crianças tiveram a ideia do embrulho, de repente, ela começou a brilhar. Quero dizer…

— Quer é enfiar-me o barrete, não é? — resmungou o Sr. Mateus. — Vou tomar outras medidas. O ministro…

— Pergunte ao Francisco sobre a estrela. Ele também viu! — podia ainda ter dito a D. Mariana, mas o pai de Francisco já tinha desligado.

Na manhã seguinte, a professora foi para a escola um pouco abatida. O marido tinha-a animado, e sugerido, caso fosse preciso, que pagasse ela própria as coisas para a encomenda, mas a D. Mariana achava que não era a mesma coisa.

No recreio, Francisco veio logo a correr ao seu encontro e entregou-lhe uma carta. A professora abriu apressadamente o envelope e a nota de vinte euros que vinha lá dentro quase voava para o chão. O Sr. Mateus tinha escrito ainda algumas linhas.

Cara D. Mariana,

Falei com o meu filho Francisco. Ainda não sei se é correcto o que pensa fazer, mas tive a impressão de que ainda se via nos olhos do Francisco o brilho da estrela.
Desculpe, por favor, o meu telefonema de ontem. A minha mulher diz muitas vezes que eu sou uma pessoa impetuosa.

Alexandre Mateus

No dia seguinte, saiu o camião para a Anatólia com muitas encomendas. No embrulho da turma B, ia uma carta.

Feliz Natal! — estava escrito. Cada uma das vinte e seis crianças escrevera o seu nome por baixo.

— Algures, na Anatólia, uma estrela vai subir ao céu — disse a D. Mariana às crianças.

Willi Fährmann

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989
tradução e adaptação

A árvore que falava

Paciência

Não te zangues com aqueles
que são mais fracos do que tu,
nem os olhes com superioridade.
Tenta aceitar com calma as contrariedades que vais
encontrando pelo caminho.
Vê também o seu lado positivo!
Ajudar-te-ão a crescer.

 

 

A árvore que falava

Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra.

Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África.

A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta…

E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas.

Até os homens vinham sentar-se debaixo dela no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos.

A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar.

Mas a árvore não guardava para si o seu saber: àqueles que tinham os ouvidos atentos, ela murmurava, em confidência, a resposta a muitas questões.

Quando os seus filhotes estavam suficientemente grandes para voar, as andorinhas, as cotovias e os estorninhos tinham por hábito levá-los até à árvore. Ao cair da noite, esta enchia-se de chilreios. Passado algum tempo, com três bicadas, os pais faziam calar os mais palradores. E cada um escutava o murmúrio que subia da raiz mais profunda até ao raminho mais alto.

No dia seguinte, os jovens sabiam um pouco mais da arte de voar em ziguezague para enganar as aves de rapina que mergulham sobre as presas. E a águia ou o milhafre regressavam às montanhas de mãos a abanar, perguntando-se por que milagre todos os passarinhos daquele canto da savana se tinham tornado, de repente, tão espertos!

E cada girafinha que partia a mascar um punhado de folhas da árvore ficava a saber um pouco melhor como evitar a leoa que caçava. E, misteriosamente, cada leãozinho, depois da sesta ao pé da árvore, desconfiava um pouco mais do riso da hiena que rondava à procura de uma presa fácil.

Mas os homens, esses, partiam tão sisudos e estúpidos como tinham vindo, e a sua tagarelice nada lhes tinha ensinado porque não sabiam escutar.

Eram orgulhosos e arrogantes. Incendiavam a savana com os seus fogos e matavam mais animais do que aqueles que precisavam para se alimentar. Matavam-se até uns aos outros. E chamavam a isso «a guerra». A árvore falava-lhes, como a todos, mas os homens não a escutavam. Por causa deles, a árvore ficou triste. Pela primeira vez, sentiu-se velha e cansada. Se pudesse, ter-se-ia deitado para esquecer. Mas quando se é uma árvore, é preciso ficar de pé a recordar…

Foi então que as suas folhas amareleceram e secaram e, em breve, ficou nua no meio da savana. Os pássaros começaram a desdenhar dos seus ramos e os leões e as girafas também, porque ela deixou de lhes falar.

E todos diziam que ela estava morta.

* * *

Por muito tempo a árvore seca ficou de pé. E parecia que nada viria alguma vez a mudar… O milhafre da montanha estava contente e as hienas riam-se. A leoa perdeu um leãozinho, a girafa uma girafinha e a andorinha, três passarinhos que mal sabiam voar.

Mas, uma manhã, veio um pequeno homem com um ar decidido. Tinha o olhar de uma criança, e esse olhar não reflectia nem fogo nem sangue. As suas mãos não agarravam nem arco nem zagaia. Contudo, era um homem.

Parou ao pé da árvore seca, estendeu os braços e, com as pontas dos dedos, tocou no tronco, muito devagar, ao de leve, como se acordasse alguém que dorme. A corcha estremeceu. E a voz do pequeno homem subiu ao longo da árvore, terna como um cântico muito antigo. O homem falava à árvore, cheio de simplicidade. Depois, calou-se. E encostando a orelha ao tronco, escutou. O vento nos ramos parecia formar palavras e frases. E quanto mais a árvore falava, mais a expressão do homem se iluminava.

Quando a árvore terminou, o homem partiu. Quando voltou, trazia um machado aos ombros. Uma vez perto da árvore, levantou a cabeça em direcção aos ramos e murmurou algumas palavras em tom de desculpa. Depois, firme nas suas pernas, com o cabo do machado bem preso nas mãos, começou a cortar o tronco.

E a madeira ressoou na savana, até aos limites do deserto e das montanhas.

Cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore.

Todos acorreram para junto dela, mas apenas encontraram um cepo e algumas aparas espalhadas pelo solo.

É que o pequeno homem, ajudado por alguns da sua aldeia, tinha levado a árvore até casa. E, com medo dos homens, os animais não se atreveram a segui-lo.

Uma vez chegados à aldeia, o homem pôs-se a trabalhar. Tinha uma grande ideia: para que a voz de madeira da velha sábia percorresse de novo a savana, iria fazer um tantã.

Um tantã mais sonoro e maior do que qualquer outro. Suficientemente longo para que todos os homens da tribo pudessem tocar em conjunto.

Quando o homem pegava de novo no machado para podar os ramos e deixar, assim, o tronco livre, aqueles que tinham carregado a árvore com ele fizeram-lhe sinal que parasse:

— Pequeno homem, nós ajudámos-te — disseram os homens fortes com as suas vozes grossas. — O nosso trabalho deve ser pago.

— Mas… com que é que vos vou pagar? Eu não tenho nada, bem sabem!

— Deixa-te disso! — insistiram os homens fortes. — Trouxemos a tua árvore, dá-nos a nossa parte.

— Não pode ser — protestou o homem. — É preciso que o tronco fique inteiro para o tantã. Se não, como é que a tribo poderá tocar?

Os homens obstinavam-se a reclamar a sua parte da madeira e o assunto foi levado ao Conselho dos Anciãos.

* * *

Era uma assembleia de homens muito velhos e muito tagarelas. Sempre prontos a pronunciar uma sentença ou um julgamento, tanto a propósito do que conheciam como do que ignoravam. Nada lhes agradava mais do que reunirem-se quando lhes pediam um conselho, e também quando não lhos pediam! Ora, o Conselho tinha por hábito reunir-se debaixo da grande árvore, e os velhos sentiam-se desamparados… pois a árvore tinha sido cortada! O mais velho dos Anciãos, um pequeno velhinho com a face enrugada como uma ameixa seca, agitou o cachimbo por cima da cabeça e tomou a palavra:

— O Conselho não se pode reunir por falta de um lugar adequado.

E expeliu uma baforada do seu cachimbo.

Os outros membros do Conselho, sentados em círculo, aprovaram com um movimento de cabeça, expeliram, cada um, uma baforada do seu cachimbo e guardaram silêncio.

Os homens fortes, que queriam a sua parte da árvore, e o pequeno homem, que nada queria, não sabiam o que fazer.

Impaciente por começar o trabalho, o homem avançou para dentro do círculo, curvou-se respeitosamente diante do mais velho dos Anciãos:

— Digam-me apenas se posso começar o meu trabalho, já que estais aqui reunidos.

— É verdade que estamos aqui — respondeu o Ancião. — Mas o Conselho não está reunido. Por isso, não pode dar a sua opinião.

Expeliu uma outra baforada e calou-se.

Os homens fortes, impacientes por levar a madeira que lhes cabia, inclinaram-se, por sua vez, diante dos Anciãos e disseram:

— Digam-nos apenas se podemos pegar na nossa parte.

O Ancião nem se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a expelir uma baforada do cachimbo e permaneceu em silêncio.

Mas o mais forte, que também era o mais impaciente, deu um passo em frente.

De imediato, o velho homem largou o cachimbo e, com uma voz trémula, acrescentou precipitadamente:

— O Conselho vai reunir… para decidir onde terá lugar o próximo Conselho.

O discurso enfadonho que se seguiu poderia ter durado até ao final dos tempos, se o Conselho não tivesse acabado por decidir… que decidiria mais tarde!

De seguida, os velhos aconselharam o pequeno homem a dar aos homens fortes o que eles pediam. Depois, reclamaram, por sua vez, um pedaço da árvore como recompensa pelo sábio conselho. E o pequeno homem assim o fez, porque era costume dar uma prenda aos Anciãos, como agradecimento pelos seus conselhos.

E cada um se apressou a serrar, a rachar e a atar.

E o pedaço de árvore não tardou a transformar-se em achas, toros e feixes para queimar. Os homens acendiam fogueiras à volta da aldeia para manter afastados os animais selvagens. Ignoravam que os animais tinham ainda mais medo deles do que das suas fogueiras.

* * *

Um pouco desiludido, o pequeno homem reparou na diminuição do tronco, mas disse para si mesmo que, apesar de tudo, ainda chegava para fazer um bom tambor para a tribo.

Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. O machado, no entanto, não era muito adequado para o descortiçamento, por isso decidiu ir a casa de um vizinho pedir emprestado um podão, cuja lâmina curvada faria melhor o serviço. Como era hábito, o vizinho estava a fazer a sesta e o pequeno homem acordou-o para lhe fazer o pedido.

— Ah! És tu? — disse o vizinho, bocejando como um hipopótamo. — O que queres de mim?

— Podias emprestar-me o teu podão? — perguntou muito educadamente o pequeno homem.

— Eh! — respondeu o vizinho, tão amável quanto um crocodilo a quem interromperam a digestão. — Não me deixas dormir com esse barulho todo… E ainda por cima queres que te empreste o meu podão! E se eu precisar dele?

— Mas… é só por um dia! Amanhã já terei acabado!

— O que me dás em troca?

— Sabes bem que não tenho nada de meu.

— Ah não? E essa árvore? É tua, não é?

— Sim, mas… — começou o pequeno homem.

— Pois bem, dá-me um pedaço para alimentar a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu podão.

Assim se fez, já que mais ninguém na aldeia tinha a ferramenta de que o pequeno homem precisava.

Um pouco desiludido, atentou no tronco, agora mais pequeno. No entanto, havia ainda madeira para fazer um tantã para a tribo.

Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. E o descortiçamento depressa terminou.

Mas, quando quis cavar o tronco, apercebeu-se de que não tinha cinzel para o fazer.

De certeza que o vizinho tinha um, mas será que lho emprestaria sem reclamar mais um pedaço da árvore?

Infelizmente, mais ninguém da aldeia tinha cinzel. E era preciso acordar novamente o hipopótamo, amável como um crocodilo.

— Tu, outra vez! — bocejou o vizinho. — O que queres?

— Desculpa — disse o pequeno homem com a sua voz gentil. — Vim devolver-te o podão… e pedir-te, em troca, um cinzel, se fazes o favor.

— Em troca? — zombou o vizinho. — Não há troca nenhuma porque o podão é meu. Dá-me um pedaço de madeira para a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu cinzel.

* * *

Assim foi feito. E o pequeno homem, um pouco desiludido, atentou no tronco muito curto. Ainda podia fazer um bonito tantã, não para toda a tribo, mas, mesmo assim, um bonito tantã. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e depressa cavou o tronco. Faltava apenas endurecê-lo ao lume, para que fosse mais sólido e para que o seu som chegasse mais longe.

Mas o pequeno homem não tinha fogueira e já havia dado tanta madeira aos outros que não possuía o suficiente nem para atear um fogo. Claro que a fogueira do vizinho crepitava, um pouco mais longe, mas não ousava acordá-lo pela terceira vez.
Foi então pedir aos homens fortes a permissão de passar o seu tantã pelo fogo.

— De acordo, — disseram eles — mas com a condição de pores uma acha na nossa fogueira, como todos fazem.

— Mas… já não tenho madeira, já vos dei tudo! — respondeu.

— Ah sim? E isto, isto não é madeira? — perguntou o mais forte dos homens fortes, indicando o pequeno tantã.

Com a morte na alma, o pequeno homem teve de se resolver a cortar um pedaço do tantã antes mesmo de lhe ter ouvido a voz.

E quando pensou naquilo que lhe restava do imenso tronco que a árvore lhe tinha dado, esteve quase para se sentar a chorar e abandonar o seu belo projecto.

Mas caiu de novo em si e disse para si mesmo que, apesar de tudo, se não chegasse para um tantã, chegaria para fazer um grande tambor.

Cheio de coragem, meteu mãos à obra e o que restava do tantã foi rapidamente convertido em djembé. (Djembé é o nome que se dá em África a esta espécie de tambor). Mas o pequeno homem apercebeu-se de que lhe faltava uma pele de cabra para o tambor.

Partiu então à procura do rebanho de cabras. A rapariga que as guardava era ainda quase uma criança, e o pequeno homem pensou que seria mais fácil falar com ela.

— Bom dia — disse à criança.

— Bom dia — respondeu ela. — És tu que dás madeira a toda a gente em troca de uma ferramenta ou de lume?

— Sim, quer dizer… — começou ele.

— O que queres de mim? — interrompeu a criança.

— Apenas uma pele de cabra, uma daquelas que tens por aí. Mas já não tenho madeira para te dar.

— É pena — disse a rapariga. — Porque também eu necessito de um pouco de madeira. Para afastar os leões do meu rebanho não há nada melhor do que uma boa fogueira, disseram-me os Anciãos.

— Oh, por favor, dá-me uma pele. Bem vejo que não te fazem falta — suplicou o pequeno homem.

— Pelo contrário, as minhas peles, troco-as por madeira! — retorquiu a criança.

E, como mais ninguém na aldeia tinha peles de cabra, o homem foi obrigado, uma vez mais, a cortar um pedaço do tambor.

* * *

A pele de cabra era dura e seca, frágil como uma corcha. Antes de a colocar no tambor, era preciso macerá-la, fervê-la, esticá-la, batê- la, para a tornar mais suave e tão sólida como o couro.

Só faltava levá-la ao curtidor.

Aquele que curtia todas as peles da tribo morava sozinho fora da aldeia, perto do rio. O seu trabalho requeria muita água. E os outros não tinham querido que ele se instalasse perto, devido ao cheiro insuportável das peles molhadas.

Mas, por mais longe que o curtidor morasse, também ele tinha ouvido falar da árvore abatida. Por sua vez, reclamou uma parte, como prémio do seu trabalho.

— Mas já não há nenhuma árvore! — lamentou-se o pequeno homem. Ficou apenas um tambor!

— De acordo — concluiu o curtidor. — Contentar-me-ei com um bocado do tambor.

E o pequeno homem cortou e deu-lhe a madeira, e a pele foi curtida, seca e ficou pronta a ser colocada no djembé.

Quando quis esticá-la, deu-se conta de que lhe faltava uma corda para o fazer.

Foi então à procura daquele que na aldeia melhor sabia entrançar cordas. É que a corda que estica a pele de um djembé tem de ser sólida.

Tal como os outros, o entrançador de cordas pediu um pouco de madeira. Apesar dos seus protestos e lamentos, o pequeno homem nada conseguiu. E o tambor ficou ainda mais pequeno.

Regressou a casa perturbado, com a corda ao ombro. Ao ver o tambor tão pequeno, perguntou-se se teria valido a pena o trabalho.

Depois, recordou a árvore que se erguia no meio da savana. Lembrou-se da promessa que lhe tinha feito e sentiu de novo coragem. Depressa a pele de cabra foi colocada no djembé, em arco, e muito esticada por uma rede de nós sólidos e complicados.

* * *

O homem olhou para o seu djembé, finalmente pronto! Claro que era um djembé muito pequenino, bem diferente daquele tantã que ele quereria ter talhado e no qual toda a tribo teria tocado em conjunto. No entanto, o homem não ficou decepcionado, porque era um belo djembé: esculpido, polido, suficientemente largo para as suas pequenas mãos, e suficientemente grande para lhe caber entre os joelhos. Então, quis experimentá-lo. Com as palmas e os dedos pôs-se a tocar. E a voz que saía deste tambor, tão pequenino que mais parecia um tambor de criança, era ampla e vasta e profunda como a floresta.

O homem sentiu-se arrebatado e as suas mãos continuaram a tocar… E a voz imponente do pequeno djembé estendeu-se a toda a aldeia e à savana inteira.

Um por um, todos os membros da tribo aproximaram-se dele. Tinham vindo todos: desde o mais ancião dos Anciãos à pequena guardadora de cabras, do mais forte dos homens fortes ao vizinho crocodilo. Tinham deixado as suas fogueiras, as suas conversas enfadonhas e as suas sestas, para formar um círculo em redor do pequeno tambor. E faziam silêncio.

Do pequeno djembé elevavam-se palavras e frases que diziam toda a savana: o medo da zebra que foge à azagaia do caçador ávido, o sofrimento da erva que curva perante a chama acesa pelo homem, a doçura do vento que murmura nos ramos da árvore… E os homens escutavam. Eles, que só pensavam na caça, na guerra e nas fogueiras, faziam silêncio.

Assim, até aos limites da montanha e do deserto, cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. E, graças às mãos do pequeno homem, todos partilharam de novo o seu saber, por muito tempo ainda. Porque, ao som do djembé, o cepo da antiga árvore germinou. Do jovem rebento brotou uma nova árvore.

E, sob a sua corcha de árvore, corria a seiva da sabedoria de África.

A seus pés, por entre as ervas altas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. E as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, e os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta.

Até os homens…

Do Spillers
L’arbre qui parle
Toulouse, Milan Poche, 1999
tradução e adaptação

A história da árvore do Paraíso

Respeito pela Natureza

A natureza é generosa com
todos, mas os seus dons estão
a esgotar-se devido à cegueira e
ao egoísmo dos homens que põem
os seus interesses acima
do interesse comum.
Sê responsável.

 

A história da árvore do Paraíso

No início do mundo, o Grande Criador plantou um jardim.

Inúmeras plantas formosas cresciam em cada um dos seus diferentes campos.

Havia jardins de florestas, completamente cobertos de musgo verde e campainhas ondulantes, que acenavam timidamente ao vento. Pequenos seres povoavam estes jardins, farejando e sussurrando a toda a hora.

Havia jardins de pradarias cheios de ervas oscilantes, que os animais percorriam com passadas graciosas.

Havia também jardins subaquáticos, para os seres do mar profundo. Tinham folhas roçagantes, arrastadas pelas correntes, e misteriosas flores de pétalas trémulas.

Os mais belos de todos eram os jardins de árvores. Eram tão altas que tocavam o céu. Nessas árvores, os pássaros todos faziam os seus ninhos. Os ramos, cheios de folhas, enchiam-se de trilos e chilreios, de gorjeios e assobios, de melodias trinadas, que caíam em sonora cascata para deleite do mundo.

O Grande Criador pediu aos homens que tomassem conta do mundo e construíssem para si próprios casas simples e seguras, num dos jardins de que gostassem.

Mas o tempo foi passando e as pessoas tornaram-se cada vez mais ambiciosas…

— Vamos construir CASAS MAIORES! — disseram.

— Há materiais de construção em abundância para usarmos como quisermos.

Em breve começaram a construir palácios.

Cada novo edifício era mais alto do que o anterior e os palácios eram feitos cada vez com mais magnificência.

As suas salas às centenas estavam cheias de todo o tipo de luxos… mas a ambição das pessoas não conhecia limites.

Os jardins do mundo foram caindo em ruínas, cada um deles imagem da mais desoladora devastação.

Todas as árvores tinham sido abatidas.

Os pássaros agitavam-se tristemente no chão frio, tentando, em desespero, construir novos ninhos.

As suas canções foram silenciadas.

Então, do alto do seu palácio, uma criança olhou para o mundo devastado e chorou.

— Desce à terra — sussurrou-lhe, por entre o vento, a voz do Criador. — Lá encontrarás uma semente, que deves semear num local onde possa crescer em segurança.

A correr, a criança desceu as escadas em caracol da torre do palácio.

Pousada na terra, estava uma semente castanha, enrugada, feia.

A criança pegou na semente com delicadeza.

— Onde poderei semeá-la em segurança? — perguntou-se.

Foi caminhando, caminhando, até que chegou a uma vala na qual uma lama escura corria lentamente e alguns juncos baloiçavam no vento frio.

— Coloca-a aqui, onde nunca ninguém vem! — parecia sussurrar o vento.

E foi ali que a menina enterrou a semente.

Devagar, em silêncio e completamente invisível, a semente começou a germinar.

Cresceu e fez-se uma árvore forte. Sob os seus ramos, outros jardins começaram a florescer. Em breve, as criaturas reuniram-se à sua volta.

A árvore cresceu mais alto do que todos os palácios. Os pássaros voavam por entre os seus ramos e aí construíam os ninhos.

Cresceu tanto, que chegou ao Paraíso. E quem assim o desejasse, poderia subir pelos seus ramos até ao Jardim do Paraíso do Grande Criador.

Mary Joslin
The tale of the heaven tree
Oxford, Lion Publishing, 2001
tradução e adaptação

Um amigo verdadeiro

Amizade

Um amigo verdadeiro é aquele
com quem podes partilhar um livro, estudar as lições, falar do
que te preocupa.
Receberás dele atenção e lealdade, e não inveja, mentira
ou atitudes agressivas.

 

Um amigo verdadeiro

Sempre que Rogério sai de casa, esquece-se de alguma coisa. Quando se lembra, já é tarde demais.

E o que é que Rogério faz? Absolutamente nada. Só pensa: “Ainda bem que tenho o João”.

O João é o seu melhor amigo, um amigo a sério, um amigo com quem se pode contar.

O Rogério sabe muito bem o que é um amigo com quem se pode contar. Sempre que ele se esquece de alguma coisa, é o João que o livra de apuros.

O Rogério vai para a escola sem sapatilhas.

— Logo vi que ias esquecer-te! — diz o João, tirando um par de meias grossas do saco de ginástica, que entrega ao Rogério.

O Rogério chega ao parque sem bola.

— Logo vi que ias esquecer-te!

O João tem escondida atrás das costas a sua própria bola, que lhe estende.

O Rogério vai com o João à feira popular e não leva dinheiro na carteira.

— Logo vi que ias esquecer-te! — E como não se pode andar no carrocel sem pagar, o João tira uma moeda do bolso.

E é assim dia após dia: o Rogério esquece-se sempre de alguma coisa, o João, nunca… ou será que não?

Não. O João esquece-se sempre dos lápis de cera. Não adianta esforçar-se por fazer a pasta a tempo e horas. Quando chega a aula de desenho, o João não tem os lápis de cera na pasta.

O Rogério sabe que o João se esquece sempre deles, e por isso ele, Rogério, pode esquecer-se de tudo o que há no mundo, só não se esquece dos lápis de cera.

Estão na aula de desenho. O Rogério tira os seus lápis da pasta e põe-nos em cima da carteira. O João volta a ficar corado de vergonha porque deixou os lápis em casa, no quarto.

Então, o Rogério sorri e tira da pasta outra caixinha de lápis de cera, que pousa em cima da carteira do João.

— Logo vi que ias esquecer-te! — diz ele a sorrir.

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
tradução e adaptação

De graça

Gratidão

Sê grato por tudo aquilo
que tens e lembra-te:
só aquele que sabe agradecer
os favores que recebe
merece ser ajudado!

De graça

Um rapaz foi ter com a mãe e entregou-lhe um papel. Depois de limpar as mãos ao avental, a mãe leu-o:

Por cortar a relva 5,00€

Por limpar o quarto esta semana 1,00€

Por ir fazer um recado à loja 0,50€

Por tomar conta do meu irmão 0,25€

Por ir pôr o lixo lá fora 1,00€

Por trazer boas notas 5,00€

Por limpar e varrer o quintal 2,00€

Total em dívida: 14,75€

A mãe ergueu o olhar e ele ficou ali, à espera. Ela pegou no papel, voltou-o e escreveu:

Nove meses em que te transportei quando estavas dentro de mim: de graça.

O tempo em que estive sentada a teu lado a tratar-te, e em que rezei por ti: de graça.

Todas as lágrimas que me fizeste chorar ao longo dos anos: de graça.

Todas as noites povoadas de medo e preocupações que me esperavam: de graça.

Por brinquedos, comida, roupa, e até por te assoar: de graça, meu filho.

E depois de somar tudo, o amor verdadeiro é… de graça.

Quando o filho leu o que a mãe escreveu, os olhos encheram-se- lhe de lágrimas. Olhou de frente para ela e disse: “Mãe, amo-te muito.” Depois pegou na caneta e em grandes letras escreveu: “CONTA SALDADA.”

M. Adams

Canja de galinha para a alma
Mem Martins, Lyon Edições, 2002

Cachorrinhos para venda

Esperança


Nunca deixes de acreditar na vida. Lembra-te sempre: só podes
olhar o futuro com esperança
se viveres o presente
com rectidão.

 

Cachorrinhos para venda

Um rapazinho olhou para o letreiro d loja onde estava escrito: “Vende-se cachorrinhos.”

— Por quanto vai vender os cachorrinhos? — perguntou.

— Entre 30 e 50 euros — respondeu o dono da loja.

— Tenho 2 euros e 37 cêntimos — disse o rapazinho. — Posso vê-los?

O dono da loja sorriu e assobiou, e do canil saíram cinco bolinhas de pêlo. Um dos cachorrinhos ia ficando bastante para trás. O rapazinho viu imediatamente o cachorrinho atrasado que coxeava, e disse:

— O que é que tem aquele cãozinho?

O dono da loja explicou que ele não tinha o encaixe da anca e que seria sempre coxo. O rapazinho ficou entusiasmado:

— É esse cãozinho que eu quero comprar.

O dono da loja comentou:

— O cão não está à venda. Se o quiseres, dou-to.

O rapazinho ficou muito aborrecido. Olhou bem nos olhos o dono da loja e disse:

— Não quero que mo dê. Esse cãozinho vale cada cêntimo, tal como os outros, e vou pagar o preço total. Vou dar-lhe 2 euros e 37 agora e 2 euros por mês até o ter pago.

O dono da loja insistiu.

— Não podes querer comprar este cãozinho. Nunca vai conseguir correr e saltar contigo como os outros cães.

A isto, o rapaz respondeu, baixando-se e levantando a perna da calça. Mostrou em seguida a perna esquerda muito torta e defeituosa, presa por um grande aro de metal. Olhou para o dono da loja e respondeu suavemente:

— Eu também não corro lá muito bem, e o cachorrinho vai precisar de alguém que o compreenda!

Dan Clark

Canja de galinha para a alma
Mem Martins, Lyon Edições, 2002

No país de Iqbal

Justiça


Ninguém deve sentir-se tranquilo quando sabe que há pessoas que passam necessidades, e que há crianças que não podem ir à escola e trabalham como escravas. Colabora como puderes
para a criação de uma
sociedade mais justa.

 


No país de Iqbal

1

— Feliz aniversário, querido!

Kevin sopra as velas. Apaga-as de uma só vez. À volta dele, pais e amigos gritam e aplaudem.

Kevin pode agora abrir os presentes. Gosta particularmente deste momento, em que rasga o papel dos embrulhos.

Estragam-no com mimos. Como acontece todos os anos.

Começa pelos sobrescritos que contêm dinheiro, mas o que mais gosta de abrir são, é claro, os presentes de verdade.

Dos três embrulhos, Kevin já percebeu qual é o melhor, aquele por que está à espera. Guarda-o para o fim.

— Uau, é tão bonita! — exclama.

Exactamente o que ele queria: uma bola de couro, cosida. Uma bola de jogador profissional, azul e branca, ainda mais lisa e brilhante do que nos seus sonhos.

Tira-a da caixa, segurando-a com a ponta dos dedos, como se fosse de açúcar.

Kevin queria uma bola, porque Laurent, o seu vizinho, tem uma e nunca quer emprestá-la por muito tempo. No entanto, é muito menos bonita.

Quando jogam na praceta em frente das vivendas, sempre que Laurent começa a perder, encontra um pretexto para se zangar. Pega na bola e vai-se embora. E, claro, o jogo acaba. É irritante.

De futuro, ninguém voltará a interromper a partida enquanto Kevin quiser continuar a jogar; ninguém poderá suspendê-la contra a sua vontade.

Nunca se sentira tão feliz.

— Dá cá! — pede o pai, estendendo as mãos.

É a sua vez de agarrar na bola. Acaricia-a, fá-la saltar, que vontade de lhe dar uns bons pontapés!

— Dá-ma — atalha rapidamente Kevin, que sabe o pai que tem. Quando este segura uma bola nas mãos, torna-se uma autêntica criança. É capaz de a estragar sem querer.

— Se querem jogar, vão para o jardim!

A mãe conhece-os bem, e já começa a recear pelos móveis e adornos.

Kevin não espera que lhe digam duas vezes e desata a fugir com o seu presente.

Nem sequer espera até chegar ao relvado. Ainda vai a meio do terraço e já quer experimentar a bola. Lança-a ao chão e estende as mãos para a apanhar…

Mas não apanha nada! As mãos estendidas ficam vazias. A bola não saltou. Caiu como goma sobre a tijoleira. Não voltou a mover-se, ficou como que colada e mole. Dir-se-ia um marshmallow.

Espantado, Kevin baixa-se para pegar no seu tesouro. Espantado, mas não inquieto.

Esta bola não pode ser de má qualidade. Foi ele, Kevin, que a atirou mal… Ou então é a tijoleira do terraço que está pegajosa, provavelmente cheia de compota. Seja como for, tratou-se de um acidente que não voltará a acontecer.

Kevin limpa a bola e dá-lhe lustro. Observa-lhe discretamente todas as costuras mas, nada, está tudo perfeito.

A bola precisa é de erva. No relvado vai renascer.

Kevin afasta-se da casa e espera o momento de chegar a meio do relvado para atirar ao ar o seu brinquedo.

Lança a bola para o céu, o mais alto que lhe é possível. Orgulhosamente, vê-a descer, lisa, brilhante, azul e branca, bela.

Vê-a descer… e abater-se sobre aquele tapete de relva tão suave, sem o menor desejo de saltar e de se divertir.

Não há dúvida, esta bola tem algum defeito, há algo que não bate certo.

2

— Então! Não chores! É porque a bola não está suficientemente cheia. Acontece muitas vezes quando são novas.

Kevin tinha ido contar ao pai a sua desdita. Apesar dos esforços para se conter, os olhos estão cheios de lágrimas.

O pai enterra os fortes polegares no couro, que cede facilmente.

— O que é que eu dizia! Anda, vamos arranjar isto!

Kevin assoa-se e vai com o pai até à garagem. Está cabisbaixo, ainda não sorri, mas já recuperou a esperança.

O pai de Kevin é habilidoso. Na garagem, penduradas na parede ou guardadas numa gaveta, há ferramentas que permitem consertar tudo o que não funciona bem à face da terra.

— Não mexas! Sei que há uma bomba de ar em qualquer lado… Cá está, nesta caixa…

Introduz um tubo fino como uma agulha na bomba de ar e, com firmeza, segura a bola recalcitrante entre os joelhos. E depressa lhe devolve a boa cara que ela nunca deveria ter perdido.

— Anda, apanha-a agora, se fores capaz!

A porta da garagem abre para o jardim. O pai lança a bola com tanta força que esta devia saltar até à parede do fundo. Kevin corre atrás dela, a rir-se…

Mas não por muito tempo!

Cheia ou não, a bonita bola deixa-se ficar na relva, após dois ou três saltos ofegantes. Não chegará nunca à parede do fundo.

Mais uma vez a esperança morreu nos olhos de Kevin.

— Tens razão — constata o pai — algum defeito há-de ter, na verdade. Talvez um problema no couro, não compreendo… Guardei o talão de compra. Amanhã vamos à loja para a trocarmos, não te preocupes!

Kevin encolhe os ombros: — Amanhã, amanhã!

Não está preocupado, mas a festa, o aniversário dele, é hoje, não amanhã!

Com um pontapé furioso, atira aquele trapo mole para um canto, já que não serve para nada.
Kevin decide esquecê-la. Afinal, tem outros brinquedos, brinquedos de verdade que gostam de se divertir, brinquedos de confiança.

Chegada a noite, ainda se sente tão zangado que continua a não querer ocupar-se daquele brinquedo tão decepcionante.

— Pode dormir lá fora, é o que merece.

Mas o pai não está de acordo.

— Não, não, Kevin. Vai buscá-la e guarda-a. Se a perderes ou estragares, já não podes trocá-la.

É verdade. Kevin reconhece-o. O pai tem razão.

Vai buscar a bola. Empurra-a com o pé até ao terraço, como se fosse uma velha lata de conserva, depois pega nela sem qualquer cuidado. À entrada do quarto está o cesto da roupa suja. Atira-a lá para dentro.

— Dorme bem! — ironiza.

Daqui para a frente só quer esquecê-la, mas sente-se tão irritado que não é capaz. Antes de se deitar, não consegue deixar de se virar uma vez mais para o cesto, onde a deixou:

— Não se admite o que fizeste, não se admite. No teu lugar, escondia-me. Não tens o direito de ser tão bonita, de brilhar, para depois não servires para nada quando contamos contigo. Não tens o direito de te esvaziares dessa maneira… Uma idiota, é o que tu és! Detesto-te!… Ainda bem que não te mostrei aos meus colegas. Que vergonha!… Mas não faz mal, não perdes pela demora. Amanhã vais voltar para de onde vieste, e nunca mais quero ouvir falar de ti!

Mais calmo depois destas duras palavras, Kevin deita-se e apaga a luz. Está tão cansado que adormeceria bem depressa se, por detrás dele, um estranho barulho se não fizesse ouvir.

3

Um estranho barulho, na verdade, como o de alguém a fungar, como o soluço abafado de uma criança. No meio da escuridão, Kevin ergue-se e aguça o ouvido.

— És mau! — escuta distintamente.

Desorientado, volta a acender a luz da mesa-de-cabeceira:

— Quem foi que falou, quem? — pergunta Kevin, cada vez mais inquieto.

— Aqui! — decide-se a dizer a voz misteriosa. — Aqui! Na tua bola!

De facto, a voz parece sair do cesto da roupa suja.

Kevin senta-se na beira da cama, virado para o cesto, sem se atrever a aproximar-se. É impossível, não consegue acreditar.

— Uma bola não fala! Uma bola não tem boca!

— Uma bola também não tem ouvidos e, no entanto, dirigis te- me a palavra, deste-me uma lição de moral durante um quarto de hora! Verdade ou mentira? Julgo até que me chamaste “idiota”…

— Escapou-me…

— Bem vês que não é assim tão simples.

Com os olhos encarquilhados e a boca aberta, quase sem respirar, Kevin fixa o recipiente.

— Vá, não fiques assim. Vou explicar-te. Mas, por favor, tira- me deste cesto de roupa suja.

Kevin obedece como um autómato. Aproxima-se e levanta a tampa. É de facto a bola que está lá dentro, a própria bola.

Pega nela cautelosamente, com as pontas dos dedos mas, desta vez, é por ter medo dela. Com os braços esticados, leva-a até à cama e pousa-a em cima do colchão.

— Pára lá com essas fitas! Anda ajudar-me! — impacienta-se a voz.

Kevin dá um enorme grito, porque a voz já não vem de dentro da bola.

Um rapazinho da sua idade esforça-se por sair pelo minúsculo orifício da válvula. Já libertou a cabeça e os ombros.

Com as duas mãos apoiadas no couro, tenta soltar o resto do corpo, e é a voz dele que se ouve.

Kevin esconde o rosto. Já nem se atreve a olhar.

— Não! É demais! Vim parar à casa do rei dos medricas, ou quê? Anda ajudar-me, já te disse! Acho que fiquei preso.

Kevin ainda tem medo, mas sente-se envergonhado. Não pode continuar a tremer. Faz um esforço para se aproximar.

É verdade que o rapaz não é nenhum monstro. Com os cabelos muito negros e muito lisos colados à testa, é parecido com qualquer outra criança.

Kevin agarra a bola, segura nela com firmeza para a impedir de deslizar para os lados, enquanto o seu estranho visitante faz cada vez mais força com os braços.

— Assim, isso! Aguenta!

Faz tanta força que se liberta num rompante, de uma forma tão brusca como a rolha de uma garrafa de champanhe. Depois de um enorme trambolhão, acaba sentado, de costas contra a parede, a um canto do quarto.

Ri-se. Os dentes reluzem-lhe no rosto tisnado.

Kevin ri também. O medo desaparecera. O coração continua a bater-lhe acelerado, mas por causa do esforço e da emoção.

— É um caso sério sair de lá de dentro. Ainda bem que me ajudaste, se não, ainda lá estava.

Kevin encolheu os ombros. Concorda, sente-se até orgulhoso, mas nem sabe o que dizer. Não se pode falar tranquilamente, como se nada fosse, com alguém saído não se sabe de onde. Antes de mais, Kevin precisa de algumas explicações.

O rapaz compreende.

— Queres saber como cheguei até aqui? É normal! Vou explicar-te, conforme prometi.

Levanta-se e alisa a roupa amarrotada: uma longa túnica, uma espécie de camisa de noite. Satisfeito, senta-se confortavelmente com as pernas cruzadas, em cima da alcatifa. Kevin instala-se a seu lado, com as costas apoiadas na beira da cama.

Para começar, o rapaz apresenta-se:

— Chamo-me Iqbal… Tu, chamas-te Kevin. Ouvi o teu pai chamar-te assim.

— Ouvias tudo dentro da bola?

— Claro!

— E… (Kevin lembra-se dos seus pontapés furiosos) também sentias tudo? Devo ter-te magoado! Desculpa.

— Não te preocupes, já vi outras coisas bem piores no sítio onde trabalho! Aliás, foi por isso que fugi.

— Trabalhar… Fugir… Continuo sem perceber! Antes de mais, diz-me de onde vens.

— Venho de muito longe. Venho do país onde se fazem as bolas.

4

Kevin, que se instalara sensatamente junto do seu convidado, levanta-se de um salto, furioso:

— Estás a exagerar! Do país onde se fazem as bolas? Tretas! Julgas, se calhar, que na minha idade ainda acredito em contos como o da Branca de Neve e os sete anões? Que ainda acredito naqueles países extraordinários onde se diz que seres minúsculos fabricam os nossos objectos quotidianos? Já passei a idade dessas tolices! Ando na escola e sei que os objectos são feitos em fábricas por máquinas e até por robôs… Não tentes baralhar-me!

— Mas eu não estou a tentar baralhar-te. Juro que estou a dizer a verdade: as bolas como esta são quase todas fabricadas no meu país, um país de verdade. Os bocados são unidos com um fio e uma agulha enorme por crianças da minha idade. No que me diz respeito, não os contei, mas devo ter cosido seguramente uns milhares.

—Desculpa, é que não gosto que me tomem por um imbecil…

Kevin acalma-se. Senta-se e repete:

— Desculpa! Explica-me agora por que razão fugiste e, principalmente, como.

— Porquê, é fácil de explicar. Mas como foi, já te previno, não é nada fácil. Nem eu consegui ainda perceber!

— Se não percebeste, então quero ouvir-te. Conta-me tudo!

— Foi certamente por influência da minha avó. Ela é extraordinária! É velha, velha, e conhece coisas que tu nem imaginas… Olha, estamos aqui os dois a conversar, como se falássemos a mesma língua!… tenho a certeza de que se deve a ela.

— Estranho, de facto… Mas fala-me da tua avó!

— Ela ficou cega mas, com as mãos, continua a fazer milagres. Cura as queimaduras, afasta o mal. As pessoas vêm vê-la de muito longe, pagam para falar com ela… Gosto de me sentar à beira da minha avó, embora ela às vezes me assuste. Costumava dizer:

— Sinto o infortúnio pairar sobre ti! Tem cuidado.

Um dia, acrescentou:

— Ouve, se alguém quiser fazer-te mal, pronuncia esta palavra, só esta palavra, e serás salvo.

Advertiu-me com um ar tão trágico que a palavra ficou logo gravada na minha memória.

— Serviste-te dela porque queriam matar-te? Foi isso, não foi? — diz Kevin de imediato, impressionado com a história.

— De certo modo… O dono da oficina onde cosemos as bolas batia-me cada vez mais.

— Porque é que te batia?

— Apercebi-me de que ele era um ladrão… Tinha emprestado dinheiro ao meu pai, e o meu trabalho seria para o ajudar a reembolsá- lo. Trabalhava até rebentar e o meu pai também, mas a dívida não diminuía. Havia um ardil por detrás, ele era um ladrão.

— O patife!

— Dizes bem. Da primeira vez que quis protestar, começou a dar-me murros… Uma noite, vinguei-me, inundei-lhe o stock, os caixotes prontos para partir para todos os países do mundo.

— Bem feito!

— Talvez, mas ele ficou louco. Agarrou num pau enorme e atirou-se a mim. Senti muito medo e escondi a cabeça entre os braços. Pensei logo na minha avó, porque ela sempre me defendeu. Sem mesmo reflectir, a palavra que me tinha ensinado veio-me aos lábios. Gritei-a…

— E então?

— E então, vi-me em tua casa, dentro desta bola, e não era nada agradável: davas-me grandes pontapés na cabeça, porque eu não saltava — concluiu Iqbal a rir.

— Pára com isso! Tiveste muita sorte, ele podia ter-te matado!… Que palavra extraordinária é essa?

— Não é extraordinária, até nem quer dizer nada, a minha avó inventou-a com toda a certeza: Shabatsé.

Iqbal já tinha pronunciado a palavra quando se apercebeu que não o devia ter feito. E Kevin repete:

Shabatsé, é bonito, talvez que…

Não chega a terminar a frase. Torna-se de repente muito leve, começa a flutuar, a baloiçar. E grita:

— Iqbal!

Demasiado tarde. E logo a seguir ao seu amigo, Kevin é aspirado para o interior da bola.

5

— Onde estamos? O que se passou?

Kevin sente medo, tem vontade de chorar.

— Regressámos à minha oficina — responde Iqbal. — Que horror!

Estão sentados no chão de cimento de uma divisão sombria, húmida e suja. À volta deles amontoam-se peles. É o couro que serve para fabricar as bolas. Cheira mal.

Shabatsé! Shabatsé! Shabatsé! — grita Kevin, desesperado.

— Não te canses! — advertiu Iqbal. — Já tentei, mas parece que a palavra perdeu todo o seu poder.

Kevin lança-se contra a porta… Está fechada à chave pelo lado de fora.

— O que é que nos vai acontecer? Não pedi para vir até cá! — gritou Kevin.

— Ninguém pediu para vir!

Não foi Iqbal quem respondeu. A pessoa que respondeu foi um rapaz ainda mais novo. Está de pé, ao lado de Kevin. Tem olhos grandes, muito tristes, mas sorri.

Não é o único a ter-se levantado e aproximado. Três, cinco, oito crianças mais, rodeiam Iqbal, o recém-chegado, e o seu misterioso companheiro.

— De onde saíram? — inquieta-se Kevin.

— Trabalham comigo.

— E vivem aqui? Dormem aqui? Como é que fazem? Há ratos, não?

— Habituamo-nos. Os ratos não fazem mal.

— É nojento. O vosso patrão merece ser preso.

Ninguém se dá ao trabalho de concordar.

— E agora, o que vamos fazer?

Kevin mudou de tom. Começou a perceber. Já não se inquieta apenas por si próprio, mas por todas as crianças que o acaso apanhou numa armadilha, naquele buraco pestilento.

Iqbal queria responder, mas não teve tempo: a chave gira na fechadura enferrujada da única porta. Em pânico, as crianças desaparecem. Voltam a deitar-se e fingem que estão a dormir. O próprio Iqbal foge também, mas regressa; não tem o direito de abandonar Kevin.

O homem que entra é enorme, um brutamontes. Os olhos são tão frios como balas de espingarda:

— Ah! Estás aqui! Sempre voltaste! Onde te meteste? Mas não perdes pela demora!

Está prestes a lançar-se sobre Iqbal, quando de repente se imobiliza:

— E este, quem é?

Descobrira Kevin e compreendera que pertencia a um outro mundo.

— É meu amigo — murmura Iqbal.

— Teu amigo… Teu amigo…

O homem hesita. Hesita tanto mais que Kevin já não é o mesmo. Não só tinha deixado de tremer como é agora ele quem ataca:

— Devia ter vergonha! O meu professor falou-nos de pessoas como você, mas eu não acreditava! Vou contar-lhe tudo e havemos de escrever ao ministro, ao presidente da República, ao vosso chefe de Estado! Vai pagar caro!

O homem de olhos cruéis hesitou apenas um instante. Desata a rir.

— Estrangeiro imbecil! Não vais contar a tua história a ninguém. Não voltarás a sair daqui. Vou reduzir-te a picado e hás-de ser comido pelos ratos.

Com uma só mão, agarra Kevin pelos colarinhos, levanta-o como se fosse uma palha e encosta-o à parede. Levanta a outra mão, fecha o punho, ganha o impulso necessário… Vai cumprir a ameaça, mas pára no último instante.

Volta-se, sem largar Kevin: o seu instinto de animal selvagem advertiu-o de que havia perigo nas suas costas.

Está cercado por um bando de crianças amotinadas, encurralado contra a parede.

Como seria de esperar, Iqbal e os companheiros encontram-se na primeira linha, mas os restantes vieram em socorro deles. São já trinta, quarenta, em filas cerradas, e cada vez chega mais gente. Empunham o seu instrumento de trabalho, uma temível agulha, tão afiada como um punhal. Mas mais inquietante ainda é o brilho dos seus olhos.

O homem nunca levará a melhor. Sabe-o bem, apesar da sua tacanhez. Pode varrer a primeira fila e, depois, a segunda. Como soldados prontos para o sacrifício, outros tomarão a vez. Mais cedo ou mais tarde será derrotado.

Para poder ver-se livre deles, prefere render-se.

Esquece Kevin, e levanta os braços.

6

As crianças não dão nenhuma hipótese ao seu carrasco.

Com a resistente corda que serve para coser as bolas, prendem- no de imediato e abandonam-no. Agora é cada um por si: todos se dispersam e fogem.

— Vamos ter com a minha avó. Só ela pode ajudar-te a regressar a casa — garante Iqbal a Kevin.

Para deixarem aquela cidade gigantesca, têm de caminhar durante horas antes de chegarem aos primeiros campos, sulcados por uma rede de irrigação.

Algumas frágeis barracas de madeira aninham-se no cruzamento de dois caminhos perdidos.

— É ali — declara Iqbal.

Indica-lhe uma das casas.

Entram na divisão única, sem ninguém, já que naquela altura a família está a trabalhar no campo.

A avó de Iqbal está sentada bem longe da entrada, no meio de um amontoado de tapetes.

— Estava à vossa espera! — afirma. — Aproximem-se, para eu vos ver melhor.
Para poder ver melhor, tal como diz, acaricia o rosto das crianças com as suas velhas mãos cheias de suavidade.

— Meu Deus, estão exaustos! Dá-lhe de beber! Recebe o teu amigo como deve ser.

Sobre uma braseira acesa algures, a água ferve. Iqbal prepara o chá. Serve-o a Kevin com toda a cerimónia.

— Sabes, avó, o homem quis matar Kevin. É preciso castigá-lo. Vais…

— Chiu!

A avó põe um dedo nos lábios. Pede a Iqbal que se cale, antes de continuar:

— Kevin, meu filho… Chamas-te Kevin, não é verdade? Não estou enganada? Descansa primeiro, restabelece-te de tantas emoções. Em seguida, quando estiveres preparado, pronuncia esta palavra: Namasté e voltarás para o teu quarto.

Kevin não se apressa. Acaba o chá, bate na mão de Iqbal, prometendo que tentará vê-lo de novo, embora não saiba como, pronuncia a fórmula e desaparece.

7

— Kevin! Kevin!

Kevin senta-se na cama, acordado em sobressalto pelo pai. Dormira toda a manhã.

— Levanta-te. A bola espera-te lá fora. Já não tem nada, salta como um cabrito.

— Que bola?…

Com os cabelos despenteados e os olhos pesados de sono, Kevin tem o ar de quem veio de outro planeta.

— Sabes? A tua bola supostamente estragada… Tive tempo de ir à loja. Está impecável. Devemos ter sonhado… Mas o vendedor tranquilizou-me. Tem havido ultimamente muitos problemas, muitas coisas estranhas a acontecer com estes produtos fabricados não se sabe onde… Até me falou de um punching-ball que acabou de receber. Sabes, aqueles grandes sacos de couro com que os boxeurs se treinam. Sempre que alguém lhes dá um soco, tem-se a impressão de que o saco chora e geme! Como se alguém estivesse fechado lá dentro! É estranho, não é?

Jacques Vénuleth
Au pays d’Iqbal
Paris, Ed. Magnard, 2001
tradução e adaptação

Inês

Alegria


Sempre que começares o teu dia, lembra-te dos inúmeros dons que vais receber, desde o alimento à saúde do corpo. Lembra-te também do afecto que te tem sido dado, e de como é importante poderes crescer num ambiente de paz. Tens tantos motivos para te alegrares!

 

Inês

 Uma história da América Central

 A cidade chama-se Marcala. Mar-ca-la, um nome tão bonito como os gladíolos que aqui nascem espontaneamente nos prados.

Mas a casa onde me encontro sentada é cinzenta por fora e cinzenta por dentro porque é feita de adobe que não foi rebocado. Tem uma porta de tábuas e taipais de madeira. Quando se fecham, fica tudo completamente às escuras. Inclino a cabeça para trás e vejo brilhar o céu, através do telhado, em tiras azuis claras.

“Quando chover, vai pingar aqui dentro!”, penso. “O chão de terra vai ficar enlameado e a cama e a mobília molhadas.”

A mobília: uma cama para toda a família, uma cadeira, dois escabelos, um banco, e uns pregos na parede onde estão penduradas algumas peças de roupa.

Hoje o sol está a brilhar. Estamos em meados de Agosto, altura em que, nas Honduras, a estação das chuvas faz uma pausa.

— É o Verão pequenino! — costumam dizer as pessoas.

Como há duas semanas que não chove, torna a haver muito pó, mas também há flores entre os tufos de erva. Juntamente com o céu azul e as galinhas brancas, formam um quadro muito bonito que vejo pela porta aberta.

Só que a casa cinzenta deprime-me. Cinzento não é uma cor. Cinzento é como estar triste. Tenho a impressão de que olho para isto tudo com um olhar de aprovação. Porque sou rica e nem penso nisso.

Na Áustria tenho uma casa sem buracos no telhado, uma banheira, uma máquina de lavar roupa, comprimidos para a dor de cabeça no armário dos medicamentos, férias todos os anos…

À minha volta estão sentadas uma dezena de mulheres e de raparigas que não possuem nada disto. Têm preocupações com os filhos doentes, não têm dinheiro para medicamentos nem para roupas e sapatos. Muitas delas há muito que não recebem notícias dos maridos, que moram noutras cidades, porque em Marcala há pouco trabalho.

Hoje de tarde, reuniram-se para falarem dos seus problemas e para lerem, em conjunto, a Sagrada Escritura. Tive autorização para vir também. Trouxe-me uma amiga que trabalha numa organização de ajuda ao desenvolvimento.

O que as mulheres contam quase me parece impossível: acordar todos os dias às quatro da manhã, comer unicamente tortilhas de milho e moê-lo à mão; apanhar lenha para o fogão e cortá-la em pedaços pequenos; trabalhar arduamente no campo, ir buscar água para a família toda. À noite, remendar a roupa junto ao fogão de lenha, porque não há outra luz. Em seguida, cair morta de cansaço na cama — ou em cima de uma pele de vaca, pois nem todos têm cama.

— Os meus filhos não podem ir todos à escola — diz uma mulher. — Não há roupa suficiente para se vestirem todos.

— A minha filha tem doze anos e já trabalha numa plantação, se não, não podíamos viver — diz uma outra, só com um dente na boca.

Uma menina que parece ainda ir à escola, conta:

— Eu fico sentada das seis da manhã às seis da tarde diante da máquina de costura. Trabalho em casa. Faço oito vestidos por dia e tenho de os entregar pontualmente. Até como sentada à máquina.

À minha frente está sentada a filha da dona da casa. Deve ter uns oito anos.

— Inês! — diz a mãe, esticando o queixo na direcção das galinhas que andam pelo quarto. Inês corre atrás das galinhas batendo palmas, e enxota-as para fora de casa. O irmãozinho, sempre agarrado ao seu vestido, ficou encostado ao banco, como um guarda-chuva. Parece ser um pouco parado. Meteu a mão na boca e fica quieto a chuchar nos dedos.

Inês senta-se novamente. Põe os braços à volta do irmão e, com o dedo grande do pé, espalma um monte de dejectos de galinha.

Sorrio-lhe. Inês retribui-me o sorriso. Levanta-se e vem sentar- se ao meu lado. O banquito é suficientemente largo para as duas.

Inês põe o irmão ao colo. Sinto-me lisonjeada, porque Inês é muito meiga. A sua cabeça fica à altura do meu ombro. Vejo os piolhos passearem-lhe pela cabeça uns atrás uns dos outros. Deixei de sentir-me lisonjeada e começo a pensar como afastar-me de Inês.

A alguns metros de mim há uma cadeira vazia. Sento-me nela e fico contente por ninguém poder chegar-se agora à minha beira. Mas, ao mesmo tempo, envergonho-me. Então como é?! Falo de “amor ao próximo” e tenho medo de piolhos?

Talvez tenha magoado Inês. Ao lado dela, está agora sentado o irmão, ainda com a mão na boca.

Uma das mulheres lê em voz alta uma passagem da Bíblia, o Sermão da Montanha: “Bem aventurados os que são pobres aos olhos de Deus…” Reflecti muitas vezes nesta frase. Come posso eu também ser “bem-aventurada”? De cada vez que ouço o Sermão da Montanha, também tenho vontade de ser pobre, mas pobre de uma forma que não doa. Parece-me agora que Jesus, ao proferir esta frase, quis dizer exactamente o que ela diz: “… os que são pobres aos olhos de Deus.” Estas mulheres são pobres mas não se esquecem de Deus. Acreditam que o Seu reino há-de vir e que elas hão-de poder trabalhar nele.

E é disso que estão a falar.

— Mesmo quando estou cansada, levanto-me de noite, se alguém precisar de mim — está a dizer uma delas. — Não queremos usar de violência, principalmente porque sabemos a dor que causa.

— Devemos lutar pelos nossos direitos com meios pacíficos, mesmo que seja perigoso. Como os líderes dos agricultores de Orlanjo.

— Não devo desviar os olhos quando alguém é tratado com injustiça. Apesar disso, eu faço de conta porque tenho medo.

As mulheres lembram-se de muitos exemplos das suas vidas. Nas suas vozes não há fingimento.

— A nossa horta comum também faz parte do reino de Deus, e também o sustentarmos os nossos filhos quando uma de nós adoece.

Enquanto isso, Inês fizera três tranças ao irmão. Remexe-se no escabelo para cá e para lá e por fim diz também:

— Eu fico a tomar conta do António, mas gostava mais de ir brincar…
Em cima da mesa está um gladíolo dentro de uma lata. Uma alegre mancha de cor, e só agora é que eu reparo nele. Será que foi Inês que o pôs lá?

Para terminar, as mulheres cantam uma canção “Yo tengo fé…” (Eu tenho fé)

Inês deita um olhar admirado à mãe. Talvez raramente a ouça cantar. Inês também canta. Não soa lá muito bem. Mais parece uma galinha a cacarejar, mas canta entusiasmada.

As mulheres despedem-se.

— Anda comigo! — diz-me Inês. — Vou mostrar-te as nossas mangas!

Atrás da casa há uma ladeira íngreme. A terra está fendida e esboroa-se sob os nossos pés. No cimo, está uma árvore cheia de frutos.

Inês abana um ramo. Segura na minha camisola, de forma a fazer uma bolsa, e põe as mangas lá dentro.

— Toma, são para ti!

Perdoa, Inês, por ter tido medo dos teus piolhos. E por, durante tanto tempo, não ter reparado no teu gladíolo.

 

 

Hannelore Bürstmayr
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986

Voa, gaivota, voa!

Ternura

És terno quando mostras afecto pelas pessoas e pelos animais
e tomas cuidado para
não magoar ninguém
com palavras ou
atitudes desagradáveis.

 

Voa, gaivota, voa!

Danute irrompeu no pátio a correr. Olhou à sua volta e gritou:

— Romas!

— O que tens? — perguntou Romas, que estava no jardim, por detrás do poço, trincando uma maçã.

— O Vilius anda à tua procura!

— Que quer ele?

— Tem uma gaivota.

— Uma gaivota? — Romas fez uma careta. A maçã estava verde.

— Pequena. Tem uma asa ferida. Dá cá uma maçã!

— Toma! — Romas arrancou uma e estendeu-a à menina. — Só que estão verdes.

Com a maçã na mão e depois de ter acalmando a respiração, Danute explicou:

— Sabes, quer vender-te a gaivota. Vamos!

A verdade é que Mykolas, o irmão mais velho, tinha dado a Romas uma nova moeda de rublo — um rublo! — para comprar gelados. Claro que Romas logo se gabara disso à rapaziada. Quando Vilius soube, os olhos cintilaram-lhe de inveja. Chamara mentiroso ao Romas. Então, este meteu-lhe a moeda debaixo do nariz: é ou não verdade?

Vilius sentiu até náuseas ao ver o dinheiro, sem compreender que necessidade dele teria aquele fedelho! Claro que ia gastá-lo numa bugiganga qualquer! Ele, Vilius, sim, sabia como o empregar: comprava, por exemplo, uma bobina de linha de pesca! Cortava a linha em pedaços e trocava-os com a rapaziada por outras coisas… De qualquer maneira, havia de surripiar a moeda ao Romas. Mas como?

Vilius passou dois dias dando cabo da cabeça, mas não encontrou estratagema de jeito.

Naquele dia, entretanto, apanhara na costa uma gaivota ferida e decidira tentar a sorte. Mandara Danute chamar Romas e ficou à espera empoleirado em cima de um barco virado. Os seus cálculos bateram certo: Romas e Danute chegaram à costa pouco tempo depois.

Quando Romas se aproximou, Vilius, sempre sentado em cima do barco, mostrou-lhe a gaivota e perguntou:

— Queres comprá-la?

Os olhos da gaivota suplicavam, cheios de medo.

— Não a apertes tanto — pediu Romas. — Estás a magoá-la!

— Coitada! Quem lhe teria ferido a asa? — Danute quis fazer- lhe festas, mas Vilius bateu-lhe nos dedos:

— Não lhe mexas! — E para Romas: — Dá cá o dinheiro, e fica com ela. Se a curares, terás uma gaivota em casa.

Romas tinha pena do pássaro.

— É possível curá-la? — perguntou.

— Não custa nada! Mas como é? É pegar ou largar, não tenho tempo para conversas.

— Aceita! — sussurrou-lhe a menina, quase a choramingar. Também estava com pena da gaivota. — Aceita. Tratamos dela. Eu ajudo-te.

Romas hesitava, pois poderia precisar do rublo para outra coisa.

— Então, estás com pena do dinheiro? — provocava-o Vilius. — O que dizes?

— Compro!

— Então, passa para cá a moeda!

Romas correu a toda a pressa para casa. Aqui encontrou o avô, a quem contou atabalhoadamente o que se tinha passado. Disse-lhe que tinha muita pena da gaivota.

— Claro — disse o avô em tom compreensivo e dando-lhe pancadinhas no ombro.

Vilius pegou na moeda e deu a ave a Romas. Ambos ficaram contentes. Com a gaivota ferida contra o peito e acompanhado de Danute, Romas caminhou para casa.

Depois de examinar a asa ferida, o avô disse:

— Fizeste bem! Vamos curá-la. Teremos mais uma gaivota viva neste mundo.

Só então Romas se sentiu realmente satisfeito. Embora ainda tivesse pena da moeda de rublo…

— Ora bem… Primeiro, vamos ligar a asa… — O avô trouxe a gaze e começou a fazer umas talas.

Quando a mãe voltou do trabalho, viu aquilo e perguntou severamente:

— O que se passa aqui?

— Estamos a tratar de uma gaivota — respondeu Romas.

— Muito bem, mas é melhor montarem o hospital na arrecadação — aconselhou a mãe.

A arrecadação, onde se instalaram momentos depois, era realmente um óptimo lugar para tratar da gaivota.

O avô estava tão feliz como Romas por prestar socorro à gaivota.

— Vamos arranjar qualquer coisa para pôr no fundo da caixa, onde ficará muito bem — sugeriu.

— E quando ficar boa? — quis saber Romas.

— Veremos então o que fazer. Para já, vai com Giedrius à pesca. A gaivota é uma ave que tem sempre fome.

A doente foi presenteada com um jantar de doze percas. Mas estava sem apetite. Talvez lhe doesse a asa. Comeu só quatro peixes, e dos mais pequenos.

No dia seguinte, já estava melhor. Um dia depois, não podendo ficar mais na caixa, começou a dar pulos, arrastando a asa ferida pelo chão. Romas, Giedrius, Danute e Ruta tiveram de ficar sucessivamente de guarda à entrada para manter a ave ao abrigo dos gatos, que andavam à espreita.

Toda a gente tinha pena da gaivota, e pensava com alegria que o avô ia curá-la e ela tornaria a voar. Até o Ignas passou pela arrecadação.

— Mostra-me lá a tua gaivota — pediu.

O pássaro estava sentado em cima de uma pilha de lenha.

— O Vilius é um espertalhão — disse abanando a cabeça. — Trocou esta porcaria por um rublo. Caíste como um patinho!

Romas respondeu-lhe com as palavras do avô:

— Teremos mais uma gaivota neste mundo.

— Ora, meu filho — sorriu Ignas. — Só que daqui a pouco terás de soltá-la. Não vai ficar aqui a vida toda. E ficarás sem a gaivota e sem o dinheiro.

Romas ainda não pensara nisso. Talvez o Ignas tivesse razão: quer quisesse quer não, um dia teria de soltá-la. Agora, já queria que não melhorasse tão depressa!

A gaivota, porém, era nova e o avô tratava-a bem. Restabelecia-se rapidamente. Já voava pela arrecadação, chocando contra as paredes. «Oxalá não se magoe mais, pois na arrecadação há tanta coisa: lenha, ferramenta do avô, aparelhos de pesca do pai» — pensava Romas.

— Acho que é tempo de soltá-la — disse o avô certo dia. — Que pensas?

O coração apertou-se-lhe. Estava a ponto de chorar. Mas não era um bebé! Reprimiu as lágrimas, embora a ideia da separação continuasse a causar-lhe imensa tristeza.

— Não existem gaivotas domésticas. Não são como as galinhas — disse o avô, meneando a cabeça para convencer Romas.

— Precisam de liberdade.

Mas ao ver que Romas só com grande esforço continha as lágrimas, sugeriu com um sorriso:

— Está bem. Deixa-a ficar mais uns dias.

Estavam na arrecadação. A gaivota, como que compreendendo que os homens não queriam pô-la em liberdade, voou, bateu no tecto e caiu em cima das canas de pesca do pai.

A ave lançou a Romas um olhar muito, muito triste.

— Não! — gritou Romas. — É melhor deixá-la voar!

Quis apanhar a ave para levá-la para a costa, mas esta não se deixava caçar.

Embora com grande dificuldade, só o avô conseguiu agarrá-la. O rapaz apertou a gaivota contra o peito e sentiu um coração bater mais depressa. O dele ou o da ave? Não sabia.

— Vamos, avô.

Chegaram à costa. Juntaram-se-lhes logo Giedrius, Danute e Ruta.

O mar estava calmo, o céu sem nuvens, o ar transparente. À superfície viam-se gaivotas. Daí a pouco, teriam mais uma companheira.

— Voa — disse o rapaz, atirando a gaivota ao ar.

A gaivota levantou voo.

Romas nem sentia que as lágrimas lhe turvavam os olhos.

E não era do dinheiro que tinha pena!

Viktoras Miliünas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987

 

 

 

 

 

Morangos

Humildade

As pessoas que têm verdadeiro valor não gostam de se exibir.
Procura ser discreto
e atento aos outros.

Morangos

Os morangos bravos ainda não estão maduros. É cedo. Quem vai apanhar morangos em meados de Junho?

Mas ontem, no pátio, Vilius gabou-se:

— Amanhã vamos aos morangos. Na Grabchto (língua de areia na costa) há muitos! Hoje, enchemos a barriga. Deveríamos era ter levado um balde.

Na mão segurava um frasco com o fundo mal coberto de bagas rosadas.

Meteu-o debaixo do nariz de Romas e, depois, até deixou escorregar para a mão dele alguns morangos.

— Prova. Os vermelhos já os comi.

Romas cheirou-os, disse «obrigado» e pediu timidamente:

— Posso ir convosco?

— Depois logo se vê — respondeu Vilius, em tom trocista.

Em vez de comer os morangos, Romas ofereceu-os a Danute, que estava doente há dois dias. Tinha tosse. A mãe não a deixava andar na rua. E sem ela Romas aborrecia-se. Era uma boa amiga. Nada que se assemelhasse à Ruta.

Depois de provar os morangos, Danute disse:

— Que doces! Bem gostaria de comer mais!

— Agora não tenho mais, mas amanhã trago-te muitos. Vou apanhá-los com a rapaziada — prometeu Romas.

Isto foi ontem. Hoje… Romas encontrou Ignas e perguntou-lhe quando iam aos morangos. Este fugiu à resposta:

— Que morangos?!

— Vilius disse que iam hoje…

— Vilius lá sabe o que diz. Deixa-me em paz!

— Mas eu prometi a Danute…

— E que tenho eu a ver com isso? Se prometeste, vai!

Ignas voltou-lhe as costas, enfiou as mãos nos bolsos e, bamboleando-se, atravessou o pátio. Chegado à cancela, virou-se para trás e gritou:

— Ó fedelho, não apanhes os morangos todos. Deixa alguns para a gente! — e soltou uma gargalhada.

Romas ficou a pensar no que devia fazer, mas não resolveu nada. «Sou um mentiroso! A garota está doente e eu falto à minha palavra!… Não tenho vergonha na cara!»

Em casa, depois de recuperar a calma e matar a sede, Romas decidiu-se a agir. Iria sozinho, pois sabia o caminho. Portanto, bem podia colher e trazer os morangos.

Se bem o disse, melhor o fez. Pegou no cesto e caminhou rapidamente ao longo da praia. Como os pés se lhe enterravam na areia seca, pôs-se a andar junto à água, onde a areia era mais dura. E tinha que andar muito…

Romas não sabia ainda que o gabarola do Vilius o enganara. O que os rapazes tinham encontrado era apenas um punhado de bagas meio maduras. E não na Grabchto, mas perto do velho aeródromo, no lugar soalheiro…

O Sol que acabava de sair de trás de uma nuvem começou a aquecer. O vento tépido encrespava ligeiramente a água do mar. Mas Romas caminhava sem se virar. Cansado, entrou até aos joelhos na água, molhou a cara, tomou fôlego e, sem parar mais, chegou à Grabchto.

Nesta língua de areia encravada no mar crescem amieiros e bétulas e as suas clareiras estão sempre cheias de morangos.

Depois de ter atravessado um amial, Romas espantou uma lebre que parecia estar a dormir. O bicho levantou-se de um salto e desatou a correr em ziguezagues ao longo da orla, deixando ver apenas a ponta branca do rabo.

— Não tenhas medo, lebre! — gritou-lhe Romas. — Eu só quero apanhar morangos!

A lebre, porém, não se deteve, ou porque não o ouviu ou porque, de tão assustada, nada compreendeu.

Na clareira por detrás do amial os morangos ainda não estavam maduros. Alguns estavam rosados só do lado do sol. O resto das bagas estava ainda duro e não tinha sabor. Estas eram tantas, mas todas verdes.

O que havia de fazer? Não podia voltar para casa de mãos a abanar! Entrou numa mata de bétulas e chegou a uma outra clareira. Uma cotovia cantava nas alturas. Romas levantou a cabeça para a escutar, mas quando olhou em frente o coração estremeceu-lhe de alegria: a clareira estava toda coberta de morangos maduros! E um forte e delicioso aroma pairava no ar. Romas colheu uma mão-cheia deles e levou-os à boca. Que doces! É de comer e chorar por mais! «Não, primeiro vou encher o cesto para Danute» — disse para si mesmo.

Ajoelhou-se e foi assim, de rastos, que explorou a clareira… Quando encheu o cesto, cobriu os morangos com folhas para mantê-los frescos. Foi só então que se lembrou de si próprio: comeu até não ser capaz de levar mais um morango à boca. Estava farto.

Depois de descansar um pouco e lavar de novo a cara e as mãos, que os morangos tinham tornado pegajosas, dirigiu-se para casa.

Chegou a casa já o Sol ia baixo. A mãe estava inquieta e zangada.

Para tranquilizá-la, o avô disse:

— Não te disse que nada aconteceria ao nosso Romas? Ele sabe o que faz. E quem sabe o que faz nunca se perde! Então, o que trazes aí?

— Morangos.

— Não pode ser! É ainda cedo.

— Sim, mas os da Grabchto já estão maduros!

— Deixa ver. Que lindos!

— São para Danute!

— Ora vejam! Prometeste-os a Danute? Vai lá alegrar a tua amiga.

— Mas não demores muito! — acrescentou a mãe.

— Vou num pé e venho noutro! — E virando-se para a mãe, disse:

— Tenho tanta fome!

Danute, abraçada ao cesto, disse:

— Assim que comer isto, fico boa!

Entretanto, Ignas espreitou pela janela.

— É verdade que o Romas…? — Não acabou a frase, pois viu Danute tirando morangos do cesto.

No dia seguinte, Romas procurou em vão os rapazes mais velhos. Queria convidá-los para irem aos morangos na Grabchto, mas eles haviam desaparecido ao despontar do Sol. Ninguém sabia onde se tinham metido. Voltaram à tarde. Estavam cansados, bisonhos, furiosos. Vilius ordenou a Ruta:

— Chama o Romas!

Mal Romas apareceu no pátio, Vilius atacou-o:

— Porque mentiste? Não há morangos maduros na Grabchto.

— Disse a verdade — ofendeu-se Romas. — Talvez não tivessem procurado no sítio certo.

— Percorremos a Grabchto de ponta a ponta…

— Mas eu encontrei!

Vilius piscou o olho e resmungou:

— Não sei onde os encontraste, mas o certo é que não foi na Grabchto! Não me esquecerei desta tua mentira. Percebeste?

Teria mesmo mentido? Apenas encontrara uma clareira batida pelo sol…

Viktoras Miliünas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987

O presente da costureira de colchas

Honestidade

Há muitas pessoas para quem
o dinheiro é o mais importante
na sua vida, não olhando a meios
para enriquecer.
Procura ver sempre a verdadeira
riqueza nas coisas mais simples
e mais belas da vida.
Só assim terás alegria.

O presente da costureira de colchas

Era uma vez uma costureira de colchas que vivia numa casa no cimo das montanhas de bruma azulada. Até o mais idoso dos tetravôs não se lembrava de um tempo em que ela não estivesse lá em cima a coser, dia após dia.

Aqui e ali, e onde quer que o sol aquecesse a terra, dizia-se que ela fazia as colchas mais belas que alguma vez se tinha visto.

Os azuis pareciam vir do mais profundo do oceano; os brancos, das neves mais boreais; os verdes e os púrpuras, das abundantes flores silvestres; os vermelhos, os cor-de-rosa e os cor-de-laranja, do mais maravilhoso dos pores-do-sol. Continue a ler ‘O presente da costureira de colchas’

Jacob procura um deserto

Paz

De vez em quando,

procura um espaço de silêncio.

O barulho excessivo é prejudicial.


Jacob procura um deserto

O professor de religião está a explicar às crianças por que razão os profetas e Jesus gostavam de ir para o deserto.

— No deserto, o homem está completamente sozinho. Pode fazer silêncio e meditar. Pode pôr-se à prova e ver se consegue passar sem as coisas a que está habituado: sem boa comida e sem conforto, sem diversões e amigos. Não há nada que o distraia quando quer falar com Deus.

— O Sr. Professor já esteve no deserto? — pergunta Jacob. Continue a ler ‘Jacob procura um deserto’



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