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Morangos

Humildade

As pessoas que têm verdadeiro valor não gostam de se exibir.
Procura ser discreto
e atento aos outros.

Morangos

Os morangos bravos ainda não estão maduros. É cedo. Quem vai apanhar morangos em meados de Junho?

Mas ontem, no pátio, Vilius gabou-se:

— Amanhã vamos aos morangos. Na Grabchto (língua de areia na costa) há muitos! Hoje, enchemos a barriga. Deveríamos era ter levado um balde.

Na mão segurava um frasco com o fundo mal coberto de bagas rosadas.

Meteu-o debaixo do nariz de Romas e, depois, até deixou escorregar para a mão dele alguns morangos.

— Prova. Os vermelhos já os comi.

Romas cheirou-os, disse «obrigado» e pediu timidamente:

— Posso ir convosco?

— Depois logo se vê — respondeu Vilius, em tom trocista.

Em vez de comer os morangos, Romas ofereceu-os a Danute, que estava doente há dois dias. Tinha tosse. A mãe não a deixava andar na rua. E sem ela Romas aborrecia-se. Era uma boa amiga. Nada que se assemelhasse à Ruta.

Depois de provar os morangos, Danute disse:

— Que doces! Bem gostaria de comer mais!

— Agora não tenho mais, mas amanhã trago-te muitos. Vou apanhá-los com a rapaziada — prometeu Romas.

Isto foi ontem. Hoje… Romas encontrou Ignas e perguntou-lhe quando iam aos morangos. Este fugiu à resposta:

— Que morangos?!

— Vilius disse que iam hoje…

— Vilius lá sabe o que diz. Deixa-me em paz!

— Mas eu prometi a Danute…

— E que tenho eu a ver com isso? Se prometeste, vai!

Ignas voltou-lhe as costas, enfiou as mãos nos bolsos e, bamboleando-se, atravessou o pátio. Chegado à cancela, virou-se para trás e gritou:

— Ó fedelho, não apanhes os morangos todos. Deixa alguns para a gente! — e soltou uma gargalhada.

Romas ficou a pensar no que devia fazer, mas não resolveu nada. «Sou um mentiroso! A garota está doente e eu falto à minha palavra!… Não tenho vergonha na cara!»

Em casa, depois de recuperar a calma e matar a sede, Romas decidiu-se a agir. Iria sozinho, pois sabia o caminho. Portanto, bem podia colher e trazer os morangos.

Se bem o disse, melhor o fez. Pegou no cesto e caminhou rapidamente ao longo da praia. Como os pés se lhe enterravam na areia seca, pôs-se a andar junto à água, onde a areia era mais dura. E tinha que andar muito…

Romas não sabia ainda que o gabarola do Vilius o enganara. O que os rapazes tinham encontrado era apenas um punhado de bagas meio maduras. E não na Grabchto, mas perto do velho aeródromo, no lugar soalheiro…

O Sol que acabava de sair de trás de uma nuvem começou a aquecer. O vento tépido encrespava ligeiramente a água do mar. Mas Romas caminhava sem se virar. Cansado, entrou até aos joelhos na água, molhou a cara, tomou fôlego e, sem parar mais, chegou à Grabchto.

Nesta língua de areia encravada no mar crescem amieiros e bétulas e as suas clareiras estão sempre cheias de morangos.

Depois de ter atravessado um amial, Romas espantou uma lebre que parecia estar a dormir. O bicho levantou-se de um salto e desatou a correr em ziguezagues ao longo da orla, deixando ver apenas a ponta branca do rabo.

— Não tenhas medo, lebre! — gritou-lhe Romas. — Eu só quero apanhar morangos!

A lebre, porém, não se deteve, ou porque não o ouviu ou porque, de tão assustada, nada compreendeu.

Na clareira por detrás do amial os morangos ainda não estavam maduros. Alguns estavam rosados só do lado do sol. O resto das bagas estava ainda duro e não tinha sabor. Estas eram tantas, mas todas verdes.

O que havia de fazer? Não podia voltar para casa de mãos a abanar! Entrou numa mata de bétulas e chegou a uma outra clareira. Uma cotovia cantava nas alturas. Romas levantou a cabeça para a escutar, mas quando olhou em frente o coração estremeceu-lhe de alegria: a clareira estava toda coberta de morangos maduros! E um forte e delicioso aroma pairava no ar. Romas colheu uma mão-cheia deles e levou-os à boca. Que doces! É de comer e chorar por mais! «Não, primeiro vou encher o cesto para Danute» — disse para si mesmo.

Ajoelhou-se e foi assim, de rastos, que explorou a clareira… Quando encheu o cesto, cobriu os morangos com folhas para mantê-los frescos. Foi só então que se lembrou de si próprio: comeu até não ser capaz de levar mais um morango à boca. Estava farto.

Depois de descansar um pouco e lavar de novo a cara e as mãos, que os morangos tinham tornado pegajosas, dirigiu-se para casa.

Chegou a casa já o Sol ia baixo. A mãe estava inquieta e zangada.

Para tranquilizá-la, o avô disse:

— Não te disse que nada aconteceria ao nosso Romas? Ele sabe o que faz. E quem sabe o que faz nunca se perde! Então, o que trazes aí?

— Morangos.

— Não pode ser! É ainda cedo.

— Sim, mas os da Grabchto já estão maduros!

— Deixa ver. Que lindos!

— São para Danute!

— Ora vejam! Prometeste-os a Danute? Vai lá alegrar a tua amiga.

— Mas não demores muito! — acrescentou a mãe.

— Vou num pé e venho noutro! — E virando-se para a mãe, disse:

— Tenho tanta fome!

Danute, abraçada ao cesto, disse:

— Assim que comer isto, fico boa!

Entretanto, Ignas espreitou pela janela.

— É verdade que o Romas…? — Não acabou a frase, pois viu Danute tirando morangos do cesto.

No dia seguinte, Romas procurou em vão os rapazes mais velhos. Queria convidá-los para irem aos morangos na Grabchto, mas eles haviam desaparecido ao despontar do Sol. Ninguém sabia onde se tinham metido. Voltaram à tarde. Estavam cansados, bisonhos, furiosos. Vilius ordenou a Ruta:

— Chama o Romas!

Mal Romas apareceu no pátio, Vilius atacou-o:

— Porque mentiste? Não há morangos maduros na Grabchto.

— Disse a verdade — ofendeu-se Romas. — Talvez não tivessem procurado no sítio certo.

— Percorremos a Grabchto de ponta a ponta…

— Mas eu encontrei!

Vilius piscou o olho e resmungou:

— Não sei onde os encontraste, mas o certo é que não foi na Grabchto! Não me esquecerei desta tua mentira. Percebeste?

Teria mesmo mentido? Apenas encontrara uma clareira batida pelo sol…

Viktoras Miliünas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987



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