No país de Iqbal

Justiça


Ninguém deve sentir-se tranquilo quando sabe que há pessoas que passam necessidades, e que há crianças que não podem ir à escola e trabalham como escravas. Colabora como puderes
para a criação de uma
sociedade mais justa.

 


No país de Iqbal

1

— Feliz aniversário, querido!

Kevin sopra as velas. Apaga-as de uma só vez. À volta dele, pais e amigos gritam e aplaudem.

Kevin pode agora abrir os presentes. Gosta particularmente deste momento, em que rasga o papel dos embrulhos.

Estragam-no com mimos. Como acontece todos os anos.

Começa pelos sobrescritos que contêm dinheiro, mas o que mais gosta de abrir são, é claro, os presentes de verdade.

Dos três embrulhos, Kevin já percebeu qual é o melhor, aquele por que está à espera. Guarda-o para o fim.

— Uau, é tão bonita! — exclama.

Exactamente o que ele queria: uma bola de couro, cosida. Uma bola de jogador profissional, azul e branca, ainda mais lisa e brilhante do que nos seus sonhos.

Tira-a da caixa, segurando-a com a ponta dos dedos, como se fosse de açúcar.

Kevin queria uma bola, porque Laurent, o seu vizinho, tem uma e nunca quer emprestá-la por muito tempo. No entanto, é muito menos bonita.

Quando jogam na praceta em frente das vivendas, sempre que Laurent começa a perder, encontra um pretexto para se zangar. Pega na bola e vai-se embora. E, claro, o jogo acaba. É irritante.

De futuro, ninguém voltará a interromper a partida enquanto Kevin quiser continuar a jogar; ninguém poderá suspendê-la contra a sua vontade.

Nunca se sentira tão feliz.

— Dá cá! — pede o pai, estendendo as mãos.

É a sua vez de agarrar na bola. Acaricia-a, fá-la saltar, que vontade de lhe dar uns bons pontapés!

— Dá-ma — atalha rapidamente Kevin, que sabe o pai que tem. Quando este segura uma bola nas mãos, torna-se uma autêntica criança. É capaz de a estragar sem querer.

— Se querem jogar, vão para o jardim!

A mãe conhece-os bem, e já começa a recear pelos móveis e adornos.

Kevin não espera que lhe digam duas vezes e desata a fugir com o seu presente.

Nem sequer espera até chegar ao relvado. Ainda vai a meio do terraço e já quer experimentar a bola. Lança-a ao chão e estende as mãos para a apanhar…

Mas não apanha nada! As mãos estendidas ficam vazias. A bola não saltou. Caiu como goma sobre a tijoleira. Não voltou a mover-se, ficou como que colada e mole. Dir-se-ia um marshmallow.

Espantado, Kevin baixa-se para pegar no seu tesouro. Espantado, mas não inquieto.

Esta bola não pode ser de má qualidade. Foi ele, Kevin, que a atirou mal… Ou então é a tijoleira do terraço que está pegajosa, provavelmente cheia de compota. Seja como for, tratou-se de um acidente que não voltará a acontecer.

Kevin limpa a bola e dá-lhe lustro. Observa-lhe discretamente todas as costuras mas, nada, está tudo perfeito.

A bola precisa é de erva. No relvado vai renascer.

Kevin afasta-se da casa e espera o momento de chegar a meio do relvado para atirar ao ar o seu brinquedo.

Lança a bola para o céu, o mais alto que lhe é possível. Orgulhosamente, vê-a descer, lisa, brilhante, azul e branca, bela.

Vê-a descer… e abater-se sobre aquele tapete de relva tão suave, sem o menor desejo de saltar e de se divertir.

Não há dúvida, esta bola tem algum defeito, há algo que não bate certo.

2

— Então! Não chores! É porque a bola não está suficientemente cheia. Acontece muitas vezes quando são novas.

Kevin tinha ido contar ao pai a sua desdita. Apesar dos esforços para se conter, os olhos estão cheios de lágrimas.

O pai enterra os fortes polegares no couro, que cede facilmente.

— O que é que eu dizia! Anda, vamos arranjar isto!

Kevin assoa-se e vai com o pai até à garagem. Está cabisbaixo, ainda não sorri, mas já recuperou a esperança.

O pai de Kevin é habilidoso. Na garagem, penduradas na parede ou guardadas numa gaveta, há ferramentas que permitem consertar tudo o que não funciona bem à face da terra.

— Não mexas! Sei que há uma bomba de ar em qualquer lado… Cá está, nesta caixa…

Introduz um tubo fino como uma agulha na bomba de ar e, com firmeza, segura a bola recalcitrante entre os joelhos. E depressa lhe devolve a boa cara que ela nunca deveria ter perdido.

— Anda, apanha-a agora, se fores capaz!

A porta da garagem abre para o jardim. O pai lança a bola com tanta força que esta devia saltar até à parede do fundo. Kevin corre atrás dela, a rir-se…

Mas não por muito tempo!

Cheia ou não, a bonita bola deixa-se ficar na relva, após dois ou três saltos ofegantes. Não chegará nunca à parede do fundo.

Mais uma vez a esperança morreu nos olhos de Kevin.

— Tens razão — constata o pai — algum defeito há-de ter, na verdade. Talvez um problema no couro, não compreendo… Guardei o talão de compra. Amanhã vamos à loja para a trocarmos, não te preocupes!

Kevin encolhe os ombros: — Amanhã, amanhã!

Não está preocupado, mas a festa, o aniversário dele, é hoje, não amanhã!

Com um pontapé furioso, atira aquele trapo mole para um canto, já que não serve para nada.
Kevin decide esquecê-la. Afinal, tem outros brinquedos, brinquedos de verdade que gostam de se divertir, brinquedos de confiança.

Chegada a noite, ainda se sente tão zangado que continua a não querer ocupar-se daquele brinquedo tão decepcionante.

— Pode dormir lá fora, é o que merece.

Mas o pai não está de acordo.

— Não, não, Kevin. Vai buscá-la e guarda-a. Se a perderes ou estragares, já não podes trocá-la.

É verdade. Kevin reconhece-o. O pai tem razão.

Vai buscar a bola. Empurra-a com o pé até ao terraço, como se fosse uma velha lata de conserva, depois pega nela sem qualquer cuidado. À entrada do quarto está o cesto da roupa suja. Atira-a lá para dentro.

— Dorme bem! — ironiza.

Daqui para a frente só quer esquecê-la, mas sente-se tão irritado que não é capaz. Antes de se deitar, não consegue deixar de se virar uma vez mais para o cesto, onde a deixou:

— Não se admite o que fizeste, não se admite. No teu lugar, escondia-me. Não tens o direito de ser tão bonita, de brilhar, para depois não servires para nada quando contamos contigo. Não tens o direito de te esvaziares dessa maneira… Uma idiota, é o que tu és! Detesto-te!… Ainda bem que não te mostrei aos meus colegas. Que vergonha!… Mas não faz mal, não perdes pela demora. Amanhã vais voltar para de onde vieste, e nunca mais quero ouvir falar de ti!

Mais calmo depois destas duras palavras, Kevin deita-se e apaga a luz. Está tão cansado que adormeceria bem depressa se, por detrás dele, um estranho barulho se não fizesse ouvir.

3

Um estranho barulho, na verdade, como o de alguém a fungar, como o soluço abafado de uma criança. No meio da escuridão, Kevin ergue-se e aguça o ouvido.

— És mau! — escuta distintamente.

Desorientado, volta a acender a luz da mesa-de-cabeceira:

— Quem foi que falou, quem? — pergunta Kevin, cada vez mais inquieto.

— Aqui! — decide-se a dizer a voz misteriosa. — Aqui! Na tua bola!

De facto, a voz parece sair do cesto da roupa suja.

Kevin senta-se na beira da cama, virado para o cesto, sem se atrever a aproximar-se. É impossível, não consegue acreditar.

— Uma bola não fala! Uma bola não tem boca!

— Uma bola também não tem ouvidos e, no entanto, dirigis te- me a palavra, deste-me uma lição de moral durante um quarto de hora! Verdade ou mentira? Julgo até que me chamaste “idiota”…

— Escapou-me…

— Bem vês que não é assim tão simples.

Com os olhos encarquilhados e a boca aberta, quase sem respirar, Kevin fixa o recipiente.

— Vá, não fiques assim. Vou explicar-te. Mas, por favor, tira- me deste cesto de roupa suja.

Kevin obedece como um autómato. Aproxima-se e levanta a tampa. É de facto a bola que está lá dentro, a própria bola.

Pega nela cautelosamente, com as pontas dos dedos mas, desta vez, é por ter medo dela. Com os braços esticados, leva-a até à cama e pousa-a em cima do colchão.

— Pára lá com essas fitas! Anda ajudar-me! — impacienta-se a voz.

Kevin dá um enorme grito, porque a voz já não vem de dentro da bola.

Um rapazinho da sua idade esforça-se por sair pelo minúsculo orifício da válvula. Já libertou a cabeça e os ombros.

Com as duas mãos apoiadas no couro, tenta soltar o resto do corpo, e é a voz dele que se ouve.

Kevin esconde o rosto. Já nem se atreve a olhar.

— Não! É demais! Vim parar à casa do rei dos medricas, ou quê? Anda ajudar-me, já te disse! Acho que fiquei preso.

Kevin ainda tem medo, mas sente-se envergonhado. Não pode continuar a tremer. Faz um esforço para se aproximar.

É verdade que o rapaz não é nenhum monstro. Com os cabelos muito negros e muito lisos colados à testa, é parecido com qualquer outra criança.

Kevin agarra a bola, segura nela com firmeza para a impedir de deslizar para os lados, enquanto o seu estranho visitante faz cada vez mais força com os braços.

— Assim, isso! Aguenta!

Faz tanta força que se liberta num rompante, de uma forma tão brusca como a rolha de uma garrafa de champanhe. Depois de um enorme trambolhão, acaba sentado, de costas contra a parede, a um canto do quarto.

Ri-se. Os dentes reluzem-lhe no rosto tisnado.

Kevin ri também. O medo desaparecera. O coração continua a bater-lhe acelerado, mas por causa do esforço e da emoção.

— É um caso sério sair de lá de dentro. Ainda bem que me ajudaste, se não, ainda lá estava.

Kevin encolheu os ombros. Concorda, sente-se até orgulhoso, mas nem sabe o que dizer. Não se pode falar tranquilamente, como se nada fosse, com alguém saído não se sabe de onde. Antes de mais, Kevin precisa de algumas explicações.

O rapaz compreende.

— Queres saber como cheguei até aqui? É normal! Vou explicar-te, conforme prometi.

Levanta-se e alisa a roupa amarrotada: uma longa túnica, uma espécie de camisa de noite. Satisfeito, senta-se confortavelmente com as pernas cruzadas, em cima da alcatifa. Kevin instala-se a seu lado, com as costas apoiadas na beira da cama.

Para começar, o rapaz apresenta-se:

— Chamo-me Iqbal… Tu, chamas-te Kevin. Ouvi o teu pai chamar-te assim.

— Ouvias tudo dentro da bola?

— Claro!

— E… (Kevin lembra-se dos seus pontapés furiosos) também sentias tudo? Devo ter-te magoado! Desculpa.

— Não te preocupes, já vi outras coisas bem piores no sítio onde trabalho! Aliás, foi por isso que fugi.

— Trabalhar… Fugir… Continuo sem perceber! Antes de mais, diz-me de onde vens.

— Venho de muito longe. Venho do país onde se fazem as bolas.

4

Kevin, que se instalara sensatamente junto do seu convidado, levanta-se de um salto, furioso:

— Estás a exagerar! Do país onde se fazem as bolas? Tretas! Julgas, se calhar, que na minha idade ainda acredito em contos como o da Branca de Neve e os sete anões? Que ainda acredito naqueles países extraordinários onde se diz que seres minúsculos fabricam os nossos objectos quotidianos? Já passei a idade dessas tolices! Ando na escola e sei que os objectos são feitos em fábricas por máquinas e até por robôs… Não tentes baralhar-me!

— Mas eu não estou a tentar baralhar-te. Juro que estou a dizer a verdade: as bolas como esta são quase todas fabricadas no meu país, um país de verdade. Os bocados são unidos com um fio e uma agulha enorme por crianças da minha idade. No que me diz respeito, não os contei, mas devo ter cosido seguramente uns milhares.

—Desculpa, é que não gosto que me tomem por um imbecil…

Kevin acalma-se. Senta-se e repete:

— Desculpa! Explica-me agora por que razão fugiste e, principalmente, como.

— Porquê, é fácil de explicar. Mas como foi, já te previno, não é nada fácil. Nem eu consegui ainda perceber!

— Se não percebeste, então quero ouvir-te. Conta-me tudo!

— Foi certamente por influência da minha avó. Ela é extraordinária! É velha, velha, e conhece coisas que tu nem imaginas… Olha, estamos aqui os dois a conversar, como se falássemos a mesma língua!… tenho a certeza de que se deve a ela.

— Estranho, de facto… Mas fala-me da tua avó!

— Ela ficou cega mas, com as mãos, continua a fazer milagres. Cura as queimaduras, afasta o mal. As pessoas vêm vê-la de muito longe, pagam para falar com ela… Gosto de me sentar à beira da minha avó, embora ela às vezes me assuste. Costumava dizer:

— Sinto o infortúnio pairar sobre ti! Tem cuidado.

Um dia, acrescentou:

— Ouve, se alguém quiser fazer-te mal, pronuncia esta palavra, só esta palavra, e serás salvo.

Advertiu-me com um ar tão trágico que a palavra ficou logo gravada na minha memória.

— Serviste-te dela porque queriam matar-te? Foi isso, não foi? — diz Kevin de imediato, impressionado com a história.

— De certo modo… O dono da oficina onde cosemos as bolas batia-me cada vez mais.

— Porque é que te batia?

— Apercebi-me de que ele era um ladrão… Tinha emprestado dinheiro ao meu pai, e o meu trabalho seria para o ajudar a reembolsá- lo. Trabalhava até rebentar e o meu pai também, mas a dívida não diminuía. Havia um ardil por detrás, ele era um ladrão.

— O patife!

— Dizes bem. Da primeira vez que quis protestar, começou a dar-me murros… Uma noite, vinguei-me, inundei-lhe o stock, os caixotes prontos para partir para todos os países do mundo.

— Bem feito!

— Talvez, mas ele ficou louco. Agarrou num pau enorme e atirou-se a mim. Senti muito medo e escondi a cabeça entre os braços. Pensei logo na minha avó, porque ela sempre me defendeu. Sem mesmo reflectir, a palavra que me tinha ensinado veio-me aos lábios. Gritei-a…

— E então?

— E então, vi-me em tua casa, dentro desta bola, e não era nada agradável: davas-me grandes pontapés na cabeça, porque eu não saltava — concluiu Iqbal a rir.

— Pára com isso! Tiveste muita sorte, ele podia ter-te matado!… Que palavra extraordinária é essa?

— Não é extraordinária, até nem quer dizer nada, a minha avó inventou-a com toda a certeza: Shabatsé.

Iqbal já tinha pronunciado a palavra quando se apercebeu que não o devia ter feito. E Kevin repete:

Shabatsé, é bonito, talvez que…

Não chega a terminar a frase. Torna-se de repente muito leve, começa a flutuar, a baloiçar. E grita:

— Iqbal!

Demasiado tarde. E logo a seguir ao seu amigo, Kevin é aspirado para o interior da bola.

5

— Onde estamos? O que se passou?

Kevin sente medo, tem vontade de chorar.

— Regressámos à minha oficina — responde Iqbal. — Que horror!

Estão sentados no chão de cimento de uma divisão sombria, húmida e suja. À volta deles amontoam-se peles. É o couro que serve para fabricar as bolas. Cheira mal.

Shabatsé! Shabatsé! Shabatsé! — grita Kevin, desesperado.

— Não te canses! — advertiu Iqbal. — Já tentei, mas parece que a palavra perdeu todo o seu poder.

Kevin lança-se contra a porta… Está fechada à chave pelo lado de fora.

— O que é que nos vai acontecer? Não pedi para vir até cá! — gritou Kevin.

— Ninguém pediu para vir!

Não foi Iqbal quem respondeu. A pessoa que respondeu foi um rapaz ainda mais novo. Está de pé, ao lado de Kevin. Tem olhos grandes, muito tristes, mas sorri.

Não é o único a ter-se levantado e aproximado. Três, cinco, oito crianças mais, rodeiam Iqbal, o recém-chegado, e o seu misterioso companheiro.

— De onde saíram? — inquieta-se Kevin.

— Trabalham comigo.

— E vivem aqui? Dormem aqui? Como é que fazem? Há ratos, não?

— Habituamo-nos. Os ratos não fazem mal.

— É nojento. O vosso patrão merece ser preso.

Ninguém se dá ao trabalho de concordar.

— E agora, o que vamos fazer?

Kevin mudou de tom. Começou a perceber. Já não se inquieta apenas por si próprio, mas por todas as crianças que o acaso apanhou numa armadilha, naquele buraco pestilento.

Iqbal queria responder, mas não teve tempo: a chave gira na fechadura enferrujada da única porta. Em pânico, as crianças desaparecem. Voltam a deitar-se e fingem que estão a dormir. O próprio Iqbal foge também, mas regressa; não tem o direito de abandonar Kevin.

O homem que entra é enorme, um brutamontes. Os olhos são tão frios como balas de espingarda:

— Ah! Estás aqui! Sempre voltaste! Onde te meteste? Mas não perdes pela demora!

Está prestes a lançar-se sobre Iqbal, quando de repente se imobiliza:

— E este, quem é?

Descobrira Kevin e compreendera que pertencia a um outro mundo.

— É meu amigo — murmura Iqbal.

— Teu amigo… Teu amigo…

O homem hesita. Hesita tanto mais que Kevin já não é o mesmo. Não só tinha deixado de tremer como é agora ele quem ataca:

— Devia ter vergonha! O meu professor falou-nos de pessoas como você, mas eu não acreditava! Vou contar-lhe tudo e havemos de escrever ao ministro, ao presidente da República, ao vosso chefe de Estado! Vai pagar caro!

O homem de olhos cruéis hesitou apenas um instante. Desata a rir.

— Estrangeiro imbecil! Não vais contar a tua história a ninguém. Não voltarás a sair daqui. Vou reduzir-te a picado e hás-de ser comido pelos ratos.

Com uma só mão, agarra Kevin pelos colarinhos, levanta-o como se fosse uma palha e encosta-o à parede. Levanta a outra mão, fecha o punho, ganha o impulso necessário… Vai cumprir a ameaça, mas pára no último instante.

Volta-se, sem largar Kevin: o seu instinto de animal selvagem advertiu-o de que havia perigo nas suas costas.

Está cercado por um bando de crianças amotinadas, encurralado contra a parede.

Como seria de esperar, Iqbal e os companheiros encontram-se na primeira linha, mas os restantes vieram em socorro deles. São já trinta, quarenta, em filas cerradas, e cada vez chega mais gente. Empunham o seu instrumento de trabalho, uma temível agulha, tão afiada como um punhal. Mas mais inquietante ainda é o brilho dos seus olhos.

O homem nunca levará a melhor. Sabe-o bem, apesar da sua tacanhez. Pode varrer a primeira fila e, depois, a segunda. Como soldados prontos para o sacrifício, outros tomarão a vez. Mais cedo ou mais tarde será derrotado.

Para poder ver-se livre deles, prefere render-se.

Esquece Kevin, e levanta os braços.

6

As crianças não dão nenhuma hipótese ao seu carrasco.

Com a resistente corda que serve para coser as bolas, prendem- no de imediato e abandonam-no. Agora é cada um por si: todos se dispersam e fogem.

— Vamos ter com a minha avó. Só ela pode ajudar-te a regressar a casa — garante Iqbal a Kevin.

Para deixarem aquela cidade gigantesca, têm de caminhar durante horas antes de chegarem aos primeiros campos, sulcados por uma rede de irrigação.

Algumas frágeis barracas de madeira aninham-se no cruzamento de dois caminhos perdidos.

— É ali — declara Iqbal.

Indica-lhe uma das casas.

Entram na divisão única, sem ninguém, já que naquela altura a família está a trabalhar no campo.

A avó de Iqbal está sentada bem longe da entrada, no meio de um amontoado de tapetes.

— Estava à vossa espera! — afirma. — Aproximem-se, para eu vos ver melhor.
Para poder ver melhor, tal como diz, acaricia o rosto das crianças com as suas velhas mãos cheias de suavidade.

— Meu Deus, estão exaustos! Dá-lhe de beber! Recebe o teu amigo como deve ser.

Sobre uma braseira acesa algures, a água ferve. Iqbal prepara o chá. Serve-o a Kevin com toda a cerimónia.

— Sabes, avó, o homem quis matar Kevin. É preciso castigá-lo. Vais…

— Chiu!

A avó põe um dedo nos lábios. Pede a Iqbal que se cale, antes de continuar:

— Kevin, meu filho… Chamas-te Kevin, não é verdade? Não estou enganada? Descansa primeiro, restabelece-te de tantas emoções. Em seguida, quando estiveres preparado, pronuncia esta palavra: Namasté e voltarás para o teu quarto.

Kevin não se apressa. Acaba o chá, bate na mão de Iqbal, prometendo que tentará vê-lo de novo, embora não saiba como, pronuncia a fórmula e desaparece.

7

— Kevin! Kevin!

Kevin senta-se na cama, acordado em sobressalto pelo pai. Dormira toda a manhã.

— Levanta-te. A bola espera-te lá fora. Já não tem nada, salta como um cabrito.

— Que bola?…

Com os cabelos despenteados e os olhos pesados de sono, Kevin tem o ar de quem veio de outro planeta.

— Sabes? A tua bola supostamente estragada… Tive tempo de ir à loja. Está impecável. Devemos ter sonhado… Mas o vendedor tranquilizou-me. Tem havido ultimamente muitos problemas, muitas coisas estranhas a acontecer com estes produtos fabricados não se sabe onde… Até me falou de um punching-ball que acabou de receber. Sabes, aqueles grandes sacos de couro com que os boxeurs se treinam. Sempre que alguém lhes dá um soco, tem-se a impressão de que o saco chora e geme! Como se alguém estivesse fechado lá dentro! É estranho, não é?

Jacques Vénuleth
Au pays d’Iqbal
Paris, Ed. Magnard, 2001
tradução e adaptação



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