Laura Flor

Solidariedade

A ausência de diálogo leva à solidão. Muitas pessoas deprimidas acabaram no suicídio por não terem encontrado ninguém capaz de se interessar pelos seus problemas e de lhes incutir alguma esperança. O egoísmo, associado à mecanicidade do dia-a-dia, não permite a atenção ao outro, o gesto de delicadeza, a palavra que encoraja, a manifestação de afecto. Mas, sem isso, a vida torna-se árida.

Laura Flor

— Laura Flor, vem cá!

A Laura veio e era como uma flor. Delicada e suave flor igual ao nome.

Depois, foi a Maria Clara de tranças belas, castanhas, nariz arrebitado, sorriso claro – e Clara se chamava. A apertar a bata, na cintura, um cinto feito de papéis de lustro de cor, arco-íris naquela cintura de menina.

Depois, a Maria Odete, figurinha que parece ter saído de uma jarra, sempre com muitos cuidados a andar, a falar, jeito que lhe ficou de estar dentro da jarrinha. Uns olhos orientais, um sorriso que é quase choro, franjinha negra sobre os olhos à flor da pele.

— Maria Odete, se eu fosse ao Oriente e encontrasse uma flor, lembrava-me logo de ti!

— Pois é! Ela tem os olhos em bico! — diz uma companheira, pronta a tirar conclusões.

Maria Odete começa a chorar. A caírem-lhe as lágrimas devagarinho, brilhantes, também com cuidado, lentas, luminosas.

Eu não sei o que vou dizer, mas digo. Não sei o que disse, mas Maria Odete sorri. Devagarinho, também as lágrimas acabam de cair.

A que disse que a Maria Odete tinha os olhos em bico é tal e qual uma maçã dourada, redonda, toda muito por igual: maçã suspensa, nítida, decidida.

As meninas todas olharam com admiração a flor do Oriente.

Eu é que não devia dizer estas coisas, eu é que tenho a culpa – pensar alto. Mas havia reparado ontem na Maria Odete a dizer-me que não tinha livro nenhum.

— Foi tudo na cheia de ontem, minha senhora…

— E nunca mais os viste?

— Nunca mais! A minha bata, apanhei-a hoje na valeta… Até o dinheiro que ficou está a secar, preso por molas.

Diz isto com uma vozinha de quem canta dentro da tal jarra.

— Sabe a senhora? As minhas vizinhas dizem que vão reclamar ao Ministro…

—…?

— Porque não arranjaram aquele cano… É por isso que eu hoje não trago bata nem tenho livro…

— …

— … nem tenho dinheiro para comprar outro…

Diz isto tudo muito serena, com um ar de quem está a contar a história mais natural deste mundo. História tão cinzenta que na voz dela até parece um conto de fadas ao contrário.

A menina linda com os olhos à flor da pele, transparentes e escuros ao mesmo tempo. Puros. A infância desarmada.

— Senhor Ministro, devia ter mandado arranjar o cano. Não tenho livro, não tenho bata, o pouco dinheiro está a secar, preso por molas…

Tão serena. As lágrimas vagarosas de hoje – como meninas que saíram a passear para uma ilha imaginária.

Senhor Ministro, desça abaixo ao seu jardim…

Mas o Senhor Ministro não ouviu. Não desceu. Sabe lá o que é ter o pouco dinheiro preso por molas e os livros a irem na cheia.

E deve ter aprendido na escola, no liceu, que Camões salvou os Lusíadas a nado. E que deixou o fim do poema para Laura Flor escrever. Com uma peninha de rouxinol.

Matilde Rosa Araújo
As botas de meu pai
Lisboa, Livros Horizonte, 1977

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