O livro que só queria ser lido

Era uma vez um livro triste. E não era triste pelo que contava nas suas páginas e ilustrações, mas sim porque tinha um desejo imenso de ser lido e muito poucas pessoas pareciam ter vontade de o ler. Por isso, era um livro triste, e não se envergonhava de o ser, perguntando mesmo com frequência:

— Se um livro existe para ser lido e a mim não me leem, como posso eu andar contente da vida?

Embora tivesse sido publicado há já alguns anos, não podia dizer-se que fosse um livro velho. Os livros mais antigos e raros, agasalhados nas suas belas encadernações de cabedal que os protegiam da humidade e das rugas da idade, estavam bem guardados na biblioteca do dono da casa, herdada de um avô que sempre gostara muito de ler e de viajar e que os comprara nas mais importantes cidades do mundo.

O livro de que este livro fala tivera a sua época, fora lido por várias pessoas da casa e depois esquecido, como acontece, infelizmente, com a maior parte dos livros. Mas há livros que aceitam o esquecimento e outros que não se resignam com ele. Era o caso deste livro, que encontrara o seu pouso certo numa prateleira alta de uma estante colocada ao lado da secretária, onde agora era rei e senhor o computador.

Na prateleira de baixo, o livro tinha como companhia vários dicionários de que gostava muito, pois, enquanto a casa caía num sono profundo, eles ensinavam-lhe palavras em línguas que nunca imaginara poder vir a falar.

Foi assim que aprendeu a dizer «obrigado», «até amanhã», «desculpe» e «posso entrar» em francês, inglês, espanhol e alemão. Não se pode dizer que estas palavras fossem de grande utilidade no seu dia a dia, mas, como o saber nunca ocupa lugar, tinha-as armazenadas na memória, para o caso de um dia vir a precisar delas. Sim, porque nunca se sabe que destino está reservado a um livro.

Quando  via  as  pessoas  da casa  aproximarem-se  da estante,  o livro tinha sempre a esperança de que viessem buscá-lo para voltarem a lê-lo, ou mesmo para o emprestarem a um vizinho ou a um amigo, porque estava ainda em muito bom estado e tinha bastante para contar. Acontece que nunca era por causa dele que vinham, mas antes por causa dos dicionários que usavam nas traduções ou nos trabalhos da escola.

Sentiu-se ainda mais só, triste e esquecido o pobre livro, quando tiraram os romances policiais que costumavam estar alinhados a seu lado e colocaram no lugar deles vários dossiês com contas do telefone e da eletricidade e com impressos da Repartição de Finanças. Com esse tipo de papelada não tinha o livro mesmo nada a ver, sentindo que essa vizinhança era a pior coisa que lhe poderia ter acontecido.

A única companhia com que o livro podia contar era a de uma velha máquina de escrever que já tivera, naquela casa, a sua época e a sua utilidade. Isso acontecera no tempo em que ainda não existiam computadores e em que a escrita de documentos importantes ou de trabalhos escolares de maior fôlego passava quase sempre pelo teclado resistente da velha máquina.

O livro descobriu que ela chegara àquela casa vinda das mãos de um jornalista que era amigo da família e lá vivera durante uns meses. Depois, partiu para o estrangeiro e nunca mais se preocupou com a máquina de teclado AZERT, que muitas vezes foi útil, passando de mão em mão sempre que alguém precisava de escrever um texto que tivesse de ficar asseado e legível.

Os anos  foram  passando e acabou por chegar a era  dos computadores, o que deixou a máquina naturalmente receosa quanto ao seu futuro, apesar de haver sempre quem dissesse: “Eu nunca deixarei de usar a máquina de escrever, porque gosto do ruído que ela faz e da forma como vai construindo o texto no papel.” Pura conversa.

A verdade é que as pessoas se foram habituando, com maior ou menor curiosidade e interesse, ao uso do computador, até que este se tornou praticamente insubstituível.

Durante algum tempo, a máquina depositou grandes esperanças no afeto que lhe dedicava Mariana, filha dos donos da casa, que, além de ser uma grande leitora, alimentava o sonho e o desejo de vir um dia a ser escritora. Os primeiros contos que passou ao papel foram escritos naquele teclado rijo e fiável que nunca deixava mal quem dele decidia servir-se. Estabeleceu-se entre ambos uma relação de mútua confiança, ao ponto de Mariana ter transformado a máquina na confidente sempre disponível das suas queixas, desabafos e desaires amorosos.

Porém, Mariana tornou-se adulta, foi estudar para a universidade e acabou por se render às naturais vantagens do computador, contribuindo, por certo sem o desejar, para o esquecimento e abandono da velha máquina, que acabou por ser arrumada na estante, perto do livro, longe dos interesses e dos olhares das pessoas da casa. E foi particularmente triste para a máquina o dia em que viu Mariana sentar-se numa secretária, perto dela, e começar a escrever um longo texto à mão, acabando por passá-lo depois no computador sem sequer se ter lembrado da solidão poeirenta da sua velha amiga. Com a voz sumida que costumam  ter os objetos  definitivamente fora de uso, a máquina ainda tentou falar com Mariana, dizendo-lhe:

— Se quiseres, eu estou aqui à tua disposição, como sempre estive. Sabes que não sou um objeto moderno, mas não costumo deixar mal quem confia em mim. E já agora quero que saibas que tenho tido muitas saudades tuas e das confidências que partilhavas comigo.

A verdade é que estas palavras não devem ter chegado ao destino, porque Mariana nem sequer levantou os olhos do papel, concentrada como estava na escrita daquele longo texto. Isso não queria dizer que tivesse deixado de gostar da velha máquina, só que tinha passado a ter outras preocupações e urgências, o que é natural quando a vida das pessoas se transforma e quando aumentam as suas responsabilidades.

Foi essa solidão que aproximou o livro da velha máquina de escrever, permitindo que, nas noites frias de inverno, fizessem companhia um ao outro. Nessas noites quase perdiam a noção do tempo, contando histórias que já ninguém parecia querer recordar, no meio da pressa que se foi apoderando da casa, à medida que as pessoas se tornavam adultas e começavam a trabalhar em empregos que as cansavam e deixavam quase sem tempo para ler e para escrever.

— Nós, afinal — desabafou um dia a máquina com o seu amigo livro — somos como as pessoas. Temos os anos de infância e de juventude. Depois, vem a idade adulta e, a seguir, o envelhecimento. E, porque envelhecemos, acabamos um dia por ser esquecidos. É essa a nossa triste sina. E como havemos de escapar-lhe?

O livro, recusando a resignação destas palavras, contrapôs este argumento:

— Pois fica sabendo, minha cara amiga, que eu acho que só em parte tens razão, porque há coisas que se podem esquecer e abandonar e outras que não.

E deu exemplos.

— As pessoas — recordou — têm todo o direito de deitar fora um fogão velho ou um esquentador já sem uso, mas não é justo que abandonem objetos como nós, porque temos uma vida própria e porque partilhámos emoções e segredos. Isso faz com que sejamos diferentes de um fogão ou de um esquentador.

A máquina, embora concordando com os sentimentos do livro, discordou da forma pouco simpática como ele se referiu aos outros objetos:

— Então tu achas que um fogão que ajudou as pessoas a comerem os alimentos em condições e um esquentador que tão importante terá sido para a sua higiene não têm direito a fazer as mesmas exigências que nós fazemos?

O livro, porém, manteve-se na sua, considerando que, fossem quais fossem os argumentos, um livro com alguns anos de vida e de uso e uma máquina de escrever com muitas histórias para contar não podiam ser comparados a vulgares objetos da vida doméstica.

Acontece também que a máquina, pertença de um escritor conhecido antes  de ir parar às  mãos do jornalista que depois a  deixou de vez naquela casa, era possuidora de uma cultura invulgar e nunca se fez rogada quando se tratava de a partilhar com o seu companheiro de solidão, numa prateleira da estante.

Foi assim que o livro ficou a saber que muitos escritores trabalham longamente os seus textos à mão, antes de lhes darem a forma definitiva num teclado de máquina de escrever ou de computador. Desse modo, conseguem escolher as palavras certas, sejam elas verbos ou adjetivos, tornando-se só aparente a sensação de facilidade que às vezes nos transmitem quando lemos os seus textos.

Foi também a máquina que lhe contou que livros tornados célebres como obras para serem lidas por crianças começaram por ser escritos para adultos. E deu como exemplos As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, A Ilha do Tesouro, de Stevenson, ou mesmo D. Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. O livro, embora sendo livro, desconhecia estes factos, pois não era por aí além a sua cultura literária.

Deste modo, foi-se fortalecendo a relação de amizade que os unia, e o livro sentiu mesmo uma grande vontade de tornar-se leitor e de ler alguns clássicos que viviam adormecidos noutras prateleiras da estante. Acrescente-se que não foi fácil satisfazer esse desejo, pois raramente um livro se torna leitor de outros livros, até por ser complicada essa transformação física.

Conhecedora desse desejo, a máquina confiou ao livro este desabafo:

— Era  bom que os escritores tivessem um desejo semelhante ao que tu agora sentes, meu amigo.

— Referes-te a quê, concretamente? — quis saber o livro.

— Quero eu dizer que se os escritores lessem mais os livros de outros escritores, modernos ou antigos, pela certa escreveriam cada vez melhor e não perderiam tempo com pequenas invejas e a dizer mal de pessoas do mesmo ofício, o que, infelizmente, ainda acontece bastante.

— E achas mesmo que isso acontece? — perguntou o livro.

— Se eu um dia te contasse tudo aquilo que aprendi enquanto fui máquina de escrever de escritor e de jornalista, podes crer que passaríamos muitas noites inteirinhas a conversar — respondeu a máquina, levando o amigo a fazer-lhe uma sugestão:

— Pois fica sabendo que eu acho que devias escrever um livro de memórias, já que as memórias podem ser livros capazes de atrair muito leitores, mesmo que não digam toda a verdade que têm para dizer.

A máquina de escrever ouviu com agrado a sugestão, mas, ciente da dificuldade que tinha em pô-la em prática, comentou:

— Olha que não foi nada em que eu não tivesse pensado, mas tenho um problema.

— …que é?

— Quem poderá escrever essas memórias. Sim, porque uma máquina de escrever só consegue passar ao papel aquilo que os outros escrevem nela. Por mais que queira e que tente, uma máquina de escrever, mesmo que seja de muita qualidade, nunca se transforma em escritora.

O livro refletiu sobre as palavras da amiga e acabou por lhe dar razão. Ele, no fundo, também sabia que um livro, por mais ideias que tenha, nunca consegue escrever-se a si próprio, necessitando da imaginação e do trabalho criador de quem passa ao papel aquilo que depois se transforma em livro.

Se não fossem a proximidade e a amizade que entretanto nasceram, o livro dificilmente teria suportado o abandono a que o votaram, numa casa em que começou por ser tão lido e estimado e depois esquecido e abandonado, na prateleira poeirenta das coisas votadas ao esquecimento.

Mas houve um dia em que o mundo quase desabou à sua volta. Imóvel no seu lugar na estante, o livro viu o irmão mais velho de Mariana aproximar-se da máquina de escrever, na companhia de um amigo, e tomar-lhe o peso, observar o seu estado geral e sacudir a poeira nela acumulada. O que podiam significar aqueles gestos? De onde surgira um tão súbito interesse por uma máquina já esquecida e tornada inútil?

— Talvez queiram que tu voltes a ter utilidade e a ser usada por alguém que goste de escrever num teclado como o teu — admitiu o livro, com um sorriso otimista na capa já um pouco desbotada.

A máquina, porém, permaneceu em silêncio, não disfarçando a tristeza que as suspeitas que tinha nela despertavam.

— Pois fica sabendo — disse a máquina — que eu acho que não vai ser nada bom aquilo que está para me acontecer.

— Quais são os teus receios? — perguntou o livro, preocupado com as apreensões da amiga.

— Se queres que eu te diga a verdade, então digo-te que aquilo que me vai acontecer é ser vendida a algum negociante de antiguidades, porque objetos como eu começaram a ser bastante procurados por colecionadores, por terem deixado de pertencer ao presente e fazerem apenas parte da memória do passado.

O livro recusou-se a acreditar no que estava a ouvir, tanto mais que não queria aceitar a possibilidade de ficar privado da companhia da máquina de escrever. No entanto, os piores receios acabaram mesmo por se confirmar. A pessoa que acompanhava o irmão de Mariana não era um amigo mas sim um antiquário que tinha respondido a um anúncio de jornal onde se lia: “Vende-se por bom preço máquina de escrever antiga e rara que pertenceu a um escritor famoso.”

A máquina de escrever tinha os dias contados. O interesse do antiquário era evidente e faltava apenas acertar o preço. O irmão de Mariana não tinha intenção de manter em casa aquele objeto já sem utilidade prática e tratou de encontrar para ele um novo horizonte, ou seja, o de ir parar à montra de uma loja de antiguidades, para depois terminar os seus dias nas mãos de um colecionador ou na vitrina de um museu de província.

A máquina, já resignada com o seu novo destino, disse ao livro que  não  aceitava  despedidas, pois  tinha o coração  fraco e a  lágrima fácil… sim, porque mesmo uma velha máquina de escrever é capaz de chorar quando a tristeza a assalta.

O livro passou algumas noites sem pregar olho e, no dia da despedida, viu na prateleira, perto do lugar que ali ocupava, duas teclas maiúsculas da máquina de escrever, um A e um S. Andou a pensar nas palavras a que aquelas letras correspondiam e, depois de muito puxar pela cabeça, acabou por descobrir: o A era de Adeus e o S de Saudade.

Depois da partida da máquina de escrever, a solidão e o esquecimento começaram de novo a deixá-lo nervoso e irrequieto, tendo mesmo caído da prateleira duas vezes, sem que ninguém tivesse percebido lá muito bem como isso fora possível. A tia Rosário, que tinha o sono muito leve e acreditava em fantasmas, saltou da cama ao ouvir o estrondo da queda e veio para o corredor a gritar:

— É de certeza a alma penada do sr. Esteves do andar de cima que anda a rondar-nos os quartos!

Ninguém deu importância às suas palavras e aos seus medos, até porque se sabia que o sr. Esteves fora um namorado que ela tivera na juventude e que depois casara com a filha do dono da mercearia, nada fazendo crer que agora quisesse voltar para assombrar a casa dos vizinhos.

Noutra ocasião em que o livro se estatelou no chão, ruidosamente, para chamar a atenção das pessoas da casa, houve quem pensasse que tinha havido um pequeno tremor de terra, pois de outro modo não se podia explicar  que um livro caísse sem mais nem quê  de uma prateleira sólida e antiga.

Na verdade, tudo isto acontecia porque ele queria que não se esquecessem dele e do muito que tinha ainda para contar.

Uma noite, o computador ouviu fungar e deu-se conta de que o livro estava a chorar.

— Porque te deu agora para chorar? — perguntou o computador.

— Porque me sinto muito só e triste e porque não consigo dormir — respondeu o livro, tentando disfarçar as lágrimas que lhe escorriam pela capa colorida.

— Se fores paciente — disse-lhe o computador — pode ser que aconteça alguma coisa que te faça ser outra vez desejado e procurado pelas pessoas da casa. Não percas a esperança, porque isso pode acontecer a qualquer momento.

O livro percebeu que o computador estava apenas a tentar ser amável, procurando tornar suportável a tristeza que aumentava de dia para dia, de noite para noite. Por isso, não lhe confessou a inveja que sentia dele e da sua imensa popularidade, sempre com alguém à frente a escrever ou a navegar na internet. Era isso que ele desejava que lhe acontecesse, mas não havia meio de ser bafejado por essa sorte. Também se sentiu tentado a falar-lhe das saudades que sentia da velha máquina de escrever, mas não o fez, temendo ser deselegante. Era certo que essas saudades não lhe davam sossego, mas esse era um problema apenas seu, uma coisa íntima e secreta que não devia partilhar, nem mesmo com um jovem computador que tanto se esforçava por ser amável com ele naquelas horas difíceis de esquecimento e abandono.

Um dia, um grande silêncio invadiu a casa, como se tivessem todos partido para férias. Mas não, a verdade é que ninguém partira. Estavam todos em casa, mas calados de tristeza, pois morrera no Brasil o tio Vicente, que lá tinha os seus negócios e lá refizera a sua vida. Todos gostavam muito desse tio, porque ele era divertido, porque sabia dezenas de histórias assombrosas, algumas delas por ele próprio vividas, e porque nunca se esquecia de mandar presentes nos dias de aniversário das pessoas da casa.

Como morreu de repente, ninguém teve tempo para se preparar para o seu desaparecimento. Por isso, a notícia caiu como um aguaceiro gelado sobre todos aqueles que gostavam dele e que ficaram sem saber o que haviam de dizer uns aos outros, como é costume acontecer em ocasiões como esta.

O livro apercebeu-se do grande pesar que havia na casa, mas nada podia fazer para o contrariar, muito menos voltar a cair da prateleira, o que, pela certa, ainda iria aumentar a confusão reinante.

Foi nessa ocasião que o livro se lembrou de ter entrado na casa pela mão do tio Vicente. Fora ele quem o comprara, o lera e depois dera às irmãs e aos sobrinhos para o lerem também. Esses foram os tempos mais felizes da vida do livro, que se recordava perfeitamente do toque suave das mãos que o folheavam, das exclamações e suspiros que sublinhavam algumas das suas passagens e do perfume das roupas de alguns dos seus  leitores. Agora  que o tio  Vicente partira de vez,  o livro lembrava-se de tudo isso com grande exatidão. Era como se tivesse passado alegremente de mão em mão apenas uns dias antes.

E recordou-se também de ter um dia regressado às mãos do tio Vicente, que o voltou a ler e chegou mesmo a metê-lo numa mala, acabando por deixá-lo para trás por causa do excesso de bagagem. Acreditava, se calhar, que iria encontrar outro igual numa livraria brasileira, ou que um dia voltaria, com tempo e paciência, para o ler de novo. Porém, nada disso aconteceu e, agora que a sua perda era sentida por todos, essa memória tornava-se subitamente nítida e forte.

Uma noite, chegou um telefonema do Brasil, dizendo que o tio deixara coisas valiosas para a família num pequeno cofre guardado no sótão da casa. Mas havia um problema: o segredo que permitia abri-lo estava bem guardado dentro de um livro de que o tio Vicente gostava muito, mas que não se sabia ao certo qual era.

Sem segredo não havia cofre aberto, e sem cofre aberto não havia acesso à herança do tio. Assim começou a busca, livro a livro, sala a sala, prateleira a prateleira. Mas ninguém se lembrava de procurar um pouco acima da prateleira dos dicionários. Puxando pela memória, o livro recordou-se de um pequeno papel manuscrito que o tio Vicente guardara nas últimas páginas, como se quisesse assinalar com ele algum capítulo ou uma frase inesquecível. Só podia ser esse o papel que toda a família agora procurava sem descanso. Mas como havia ele de dizer que era agora o guardião do segredo? Um livro pode ter muitas capacidades e poderes, exceto o de começar a falar como um papagaio ou um rádio ligado na hora certa do noticiário.

Foi então que se lembrou de voltar a cair da prateleira, como se a terra tivesse tremido subitamente. Estatelado no chão, abriu as páginas e deixou que se soltasse uma pequena folha de papel quadriculado que tinha algumas letras e números inscritos.

Ainda passaram quase duas horas até que alguém tropeçasse nele e pusesse os olhos no papelinho mágico. Mas, quando tal aconteceu, foi como se um sol de Agosto tivesse iluminado a casa inteira. Bastou alguém exclamar:

— Encontrei o livro e o segredo do cofre!

É difícil descrever a alegria e o nervosismo que inundaram a casa quando se descobriu que, dentro do cofre, havia moedas e selos muito valiosos, e ainda jóias de ouro e pedras preciosas que tinham pertencido à avó do tio Vicente e que ele, a seu pedido, nunca quisera vender nem guardar num banco, por fazerem parte do coração da casa e da sua riqueza mais secreta. Chegaria o dia em que a descoberta seria feita, e esse dia estava agora a ser vivido por todos triunfalmente, sobretudo porque as finanças da família já tinham vivido muito melhores dias.

Só ao fim de uma semana, passadas já as horas de euforia, alguém se lembrou de comentar:

— Se não fosse a queda do livro da prateleira, ninguém teria descoberto o segredo do cofre. Portanto, só temos de estar agradecidos ao livro que veio resolver tantos problemas.

Foi então que várias pessoas da família, passando-o de mão em mão, se recordaram de o ter lido e dos momentos de satisfação que ele lhes havia proporcionado com a leitura.

Houve mesmo alguém que lhe afagou ternamente a capa, como se acariciasse um animal de companhia. E o livro, apelando às suas forças mais profundas e secretas, murmurou numa vozinha quase inaudível:

— A única coisa que eu quero é ser lido. Se me lerem, dar-me-ão toda a felicidade do mundo.

E se houvesse na casa uma tabela dos mais procurados, como há nas livrarias, o livro teria ficado várias semanas seguidas no primeiro lugar, sem rival à vista. E bem merecia esse momento de reconhecimento e consagração.

José Jorge Letria
O livro que só queria ser lido
Lisboa, Texto Editores, 2006

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