História de um rapaz

menino a voar maum

Ouve, Amigo, a história que te vou contar. Não é uma história triste nem alegre sequer. Nem é uma história de paz nem é uma história de guerra. É a história de um rapaz. O José.

Eu conheci José era ele um menino marinheiro, assim com uma blusa à marinheira muito azul: um menino que brincava com barcos de papel. Se ele tinha os olhos azuis? Não. Nem verdes. Os seus olhos eram castanhos como as cascas dos troncos sem musgos, ora muito sérios, ora muito risonhos, nem eu o sei explicar.

E o José tinha crescido. E a blusa à marinheira desbotara um pouco enquanto ele, ao sol, via deslizar os barcos de papel no charquito do quintal. Eram pequeninos aqueles barcos, mas José julgava chegar com eles às terras mais distantes, parecia-lhe que ficava molhado dos temporais e que a sua tripulação era feita de cem meninos de olhos azuis, verdes e de cor de casca de árvore como os seus. E com eles tão longe navegava! Mas um dia distraiu-se daqueles barcos de papel.

No seu quintal (é tão bom termos um palmo de terra com árvores, flores e pássaros!), entre as folhas douradas de uma árvore (estava-se no outono, Amigo, quando uma névoa dourada começa a tombar sobre a Terra), pois, como ia dizendo, no meio dessas folhas douradas, assomou a cabecinha de um pássaro. Era um pardal.

O pássaro olhava-o tristemente, sem fugir. E o menino estendeu a mão (uma mão enrugada pela água, pois ele tinha sempre as mãos na água ao brincar com os seus barcos, uma mão ainda de criança), e pegou-lhe devagar como quem pega num bocadinho de sol, de lua ou até de música, se tudo isto se pudesse alguma vez prender.

E o pardalzito olhava-o tristemente. Parecia dizer-lhe:

— Vês, José, o que me fizeram?

Estava ferido, teria sido outro pássaro maior, algum caçador, quem sabe?

E o menino pensou consigo, sozinho:

— Que lhe hei de fazer?

Levou-o perto da água, a água sua amiga que lhe era estrada dos seus barcos, e o passarito cheio de sede (talvez tivesse febre porque também têm febre os passaritos) bebeu daquela água do charco do quintal. Então, de súbito, o José pensou consigo sozinho:

— Passo aqui tanto tempo com os meus barcos e há tanta coisa linda que não olho. Porque eu nunca olhei assim os olhos de um pássaro.

Ele queria dizer lá consigo, talvez:

— Passo aqui tanto tempo e há tanta beleza que eu deixo de olhar, tanto bem que eu deixo de fazer…

Porque os meninos sentem muito, mesmo que o não digam com palavras, ou por palavras que não são bem as das pessoas crescidas que já se esqueceram do seu tempo de meninos.

E, então, o José foi ter com a mãe, subiu os degraus da casa com o passarito na mão: já se sentia cansado de pensar sozinho e não sabia mais que lhe havia de fazer. E o passarito parecia sempre perguntar:

— Vês o que me fizeram?

A mãe estava em casa a embalar a irmã pequenina, que não tinha uma blusa à marinheira mas um casaquinho fofo que parecia uma flor de amendoeira acabada de nascer. E a mãe cantava, assim com a menina como se estivesse a cantar para as estrelas. A mãe cantava assim:

O meu cantar é uma nuvem

E uma nuvem é de água…

Quando o menino apareceu a mãe interrompeu a canção.

A menina fazia clá… clá… clá… assim querendo dizer, talvez, mãe, pai, José, pássaros, a Lua, eu sei lá!

E a mãe perguntou:

— Porque apanhaste o pardalzito?

E o José explicou que ele estava ferido e que o olhava aflito como quem dizia:

— Vês o que me fizeram?

Então a mãe pegou muito devagar no pardalzito, assim de manso com as duas mãos: há alturas em que as mãos das mães parecem flores ou asas! E disse:

— Deixa, faz-se-lhe um ninho e quando ele estiver bom deixa-se voar.

— Deixa-se voar? – perguntou o José como se dissesse que o queria para si, que dele haveria saudade.

E a mãe entendeu:

— Deixa-o voar depois, José. Não voas tu sozinho, quando olhas os teus barcos ou os próprios pássaros que voam?

— Mas eu não saio do quintal!

— Mas voas, José, tu o sabes. O homem voa, é livre, deve ser livre pois tem o pensamento: e tu, quando tiveres tino, dos muros do nosso quintal sairás. Agora os pássaros precisam de todo o espaço para voar. Talvez tenham pensamento mas nós não sabemos…

E, por fim, perguntou:

— Onde o encontraste?

— Na árvore – respondeu José – entre as folhas amarelas do outono.

A mãe disse consigo sozinha: isto parece um poema…

Mas não o disse alto porque o menino a não entenderia.

Mas tu sabes, Amigo, o que é um poema e sabes que um pássaro ferido, numa árvore, e entre folhas douradas de sol, o pode ser assim.

E depois a mãe foi buscar uma pequena caixa de cartão branco e forrou-a de lã.

E lá poisou o pardalzito e meteu-lhe no bico migalhas brancas de pão.

E o pardalzito olhava a mãe do menino como se dissesse:

— O que tu me fazes…

Mas já o menino, com o coração sossegado, fugira para o quintal.

Havia um sol de outono manso e dourado que punha mais ouro nas folhas e no charquito azul – o mar dos seus barcos. Sentou-se José na relva macia do chão e apoiou a cabeça numa pedra ainda quente do sol. E pareceu-lhe ouvir um coração bater. E pensou consigo sozinho:

— Será que as pedras também têm coração?

Porque lhe parecia assim, naquela tarde de outono? Estaria ele a descobrir coisas maravilhosas da vida? Ali perto uma cigarra começou o seu canto sempre igual mas tão claro e tão lindo. Tinha sido o pássaro, depois a pedra, agora aquela cigarra sempre a dizer-lhe a mesma coisa – e tanto, afinal! – assim como aquele poema de que a mãe lhe não falara.

E começou a olhar tudo com mais atenção. Ali estava aquela figueira que ele sempre achara feia, torcida, de folhas rugosas. Comparada com a laranjeira de folhas cheias de lustro e brilhantes e – uma vez por ano – com uns frutos que pareciam de oiro, a figueira era feia, feia…

Mas agora não. Como ele nunca a tinha olhado?

A figueira era bonita, até mais que bonita, linda, com um ar de quem sofreu e, por isso, merece mais amor. Daí para o futuro havia de passar muitas vezes por ela e dizer-lhe:

— És linda, figueira, és linda!

Assim mesmo à beira para a figueira ouvir. Escusava até de lho dizer alto com palavras. Então não era linda? Não lhe pousavam pássaros que ali vinham parar cansados? E o vento, de mansinho, pelas folhas ásperas como se o vento fosse a mãe – quando a mãe a José beijava as mãozitas de água enrugadas.

E José tudo isto pensava, tudo isto sonhava. E adormeceu.

Era o pôr do sol.

Já no céu a Lua muito branca começava a balouçar, assim um pouco tremente como se tivesse frio. E a estrela dos pastores – a que aparece primeiro – de uma cor brilhante de violeta desmaiada num xaile de luz parecia dizer:

— Aí vem a noite e as estrelas minhas irmãs!…

E, então, o menino deixou-se dormir de mansinho. E sonhou. José já não era o menino de blusa à marinheira mas um homem. Ai, o que é um Homem, Amigo! Qualquer coisa de muito, muito sério!

No ar andava um perfume de maçã cortada e ele havia chegado a uma ilha com todos os seus barcos, toda a sua frota que já não era de papel. E a blusa marinheira tornara-se outra vez muito azul, muito azul, assim como o céu quando não há sol demais. Chegara a uma ilha e todos lhe diziam:

— Bom dia, senhor Capitão!

E nessa ilha as pedras tinham coração e os pássaros falavam.

Os pássaros não eram feridos pelo caçador, nem por outro pássaro maior que os fazia sofrer. Nessa ilha havia homens de cor branca, de cor amarela e de cor negra, mas esses homens eram todos estranhamente iguais. E nessa ilha as mulheres, que eram mães, tinham um ar de quem estava a cantar, mas um cantar sem tristeza nenhuma.

O meu cantar é um Sol

É um Sol cheio de luz…

E, ali, veio um grande homem e perguntou-lhe:

— Rapaz, quem és tu?

— Eu sou o José de blusa marinheira – ele respondeu.

E o homem perguntou-lhe mais:

— Rapaz, de onde vens tu?

— Eu venho do meu quintal que tem árvores, pássaros e um charquinho de água – ele respondeu.

E o homem perguntou-lhe mais ainda:

— Rapaz, quem é teu pai?

— Meu pai trabalha a terra desde a manhã e só vem para casa ao cair do sol – ele respondeu.

E o homem perguntou mais ainda:

— Rapaz, quem é a tua mãe?

— A minha mãe é a minha mãe que trata de nós e canta uma cantiga triste à nossa menina – ele respondeu.

E o homem perguntou mais ainda:

— És rico, rapaz?

Então José não soube o que responder. Ele não tinha nada. Mas pensou no pai, na mãe, na menina, nos pássaros, na figueira feia, na laranjeira linda, nas pedras quentes do sol e no charquinho do quintal. E encolheu os ombros como quem diz:

— Nada… – Ou: – Tanto! E sorriu.

Então o menino devia parecer ao homem grande uma grande estrela. E os barcos do menino seriam de ouro e as suas velas de seda.

— Rapaz, és mesmo tu quem eu procuro! – disse o Homem grande.

— Porquê? – E o menino se admirou, todo se admirou.

— Tenho um trono. Sabes o que é um trono, rapaz? – perguntou o Homem.

E o rapaz disse que sim, que sabia.

— E o trono está vazio – tornou o Homem. — Para cada criança há um trono vazio. E agora és tu quem se lá vai sentar.

O menino, sem saber porquê, lembrou-se do pássaro ferido e sentiu-se esse pássaro nas suas próprias mãos. E gritou:

— Não quero, Homem grande. Eu quero voltar para o meu quintal, para junto do meu pai, da minha mãe, da nossa menina.

— Rapaz! – tornou o Homem. — Não deixes fugir o que te ofereço agora. Tu sabes bem o que é um trono?

— Sei – fez ele que sim outra vez.

— E sabes que no meu reino os pássaros falam, as pedras têm coração, todas as mães são felizes e todos os homens contentes? Nem sequer há pássaros feridos que nos digam: Vês o que me fizeram? Esse é o Mundo que o Homem sonha e não tem ainda. E por isso sofre.

E o menino pensou consigo sozinho:

— Será que já não sou criança? Que já não sou mais criança?

E o Homem grande sorriu mais ainda como a dizer-lhe:

— Talvez não.

E o menino pensou com tristeza: — E eu que gostava tanto de ser homem e estou assim tão triste… Mas tenho saudades de beijar o meu pai quando ele vem de trabalhar a terra, de ouvir o canto triste da minha mãe (triste e, ao mesmo tempo, tão cheio de esperança!) quando ela embala a nossa menina. Saudade da nossa menina só dizer clá… clá… Saudades! Saudades do meu quintal, dos meus barcos de papel, do charquinho de água cheio de sol. Até da figueira linda, até da chuva a cair…

E entendeu o que a mãe lhe não tinha dito quando as suas mãos longas e belas seguravam o pássaro ferido que ele achara entre as folhas de outono.

E, então, disse ao Homem grande:

— Não quero o teu trono…

— Por Deus! Tens de o querer. Tu cresceste! A tua blusa marinheira cá a mim, que sou grande, parece-me um céu, mas se a olhares bem, tu, ela está desbotada. Todos nós, homens, temos uma blusa assim.

Ser grande, José (eu sei agora o teu nome), é acharmos as figueiras lindas, entendermos o canto dos pássaros, escutarmos o coração das pedras, sabermos que há uma ilha verde onde nascem as estrelas e os homens são bons. Assim. Tudo quanto sonhamos em criança mas sabermos que tudo isso é verdade dentro de nós. Que essa beleza depende de nós, do nosso coração. Estás a entender, rapaz?

O José tornou que sim com os olhos brilhantes de lágrimas… – que também se chora de alegria. Não ser mais criança era aquilo: saber que o Amor está no nosso coração, que somos nós que devemos dar essa força imensa.

E tornou a sorrir.

Então o Homem grande bradou:

— Senta-te no trono, rapaz! És um Homem!

O menino hesitou, estremeceu ainda como a primeira estrela no céu azul.

— Tens medo, rapaz? – perguntou o Homem.

E o rapaz, sem saber como, disse:

— Eu, medo? Medo não. Tudo isto é maravilhoso!

— É – continuou o Homem grande. — Vais sentar-te no trono da Vida, para cada Homem verdadeiro, para cada Mulher verdadeira, ele está sempre vazio.

— Um dia – acrescentou melancolicamente – terás cabelos brancos e eu virei de novo ter contigo.

O rapaz estremeceu e pensou consigo sozinho:

— Cabelos brancos? Assim da cor da neve do Natal? Então é verdade que a vida passa depressa e eu terei já a neve nos meus cabelos?

E o Homem grande entendeu-lhe o pensamento e sorriu-lhe com coragem:

— Passa, rapaz! Ela vai devagar mas vai passando. Aproveita-a cada dia, cada hora, como se fosse o teu último dia, a tua última hora: não percas tempo… Vê em cada ser, em cada coisa, um motivo de amor, de perdão.

— Perdão? – admirou-se o rapaz.

— Sim, rapaz. É sempre preciso perdoar. O pássaro que está em tua casa já perdoou quando te disse sem mal: vês o que me fizeram?

A figueira já te perdoou quando a achaste feia. E até te perdoou tua mãe quando achaste triste o seu canto. Perdão é entendimento pelas fraquezas da vida, mas não o esquecimento: é força para assim a não querer, para a tornar melhor.

E José disse:

— Lá vou!

E correu para o trono, para ali se sentar confiante, cheio de alegria e estendeu abertas e felizes ao Homem grande aquelas duas mãos de menino ainda, mãozitas enrugadas de água.

Mas de súbito a voz do Homem grande era a voz do pai.

— Rapaz, adormeceste!

O pai chamava-lhe rapaz. Ainda. Talvez sempre lho chamasse. As mãos do pai eram rugosas, cheias dos calos do trabalho da terra e prendiam as suas.

— Rapaz, deixaste-te dormir assim com a cabeça numa pedra…

E o pai sorria.

O ar cheirava a maçã cortada e a Lua muito nítida brilhava no céu escuro de tanto azul. Entraram em casa. A mesa estava posta, a terrina do caldo no meio da mesa, fumegante. O pai perguntou:

— Como está a nossa menina?

E a menina, no berço, fazia clá… clá… Então a mãe, enquanto deitava o caldo nos pratos, disse contente:

— Já hoje disse papá…

E depois voltou-se para o rapaz, assim como com medo de lhe dar uma notícia triste:

— Sabes que morreu o pardalzinho? Amanhã já não o podemos pôr em liberdade…

Mas o José sorriu-lhe, corajoso. Se fosse ainda uma criança, talvez chorasse. Mas já se havia sentado num trono onde se chora sem o dizer, onde se é rei para defender os outros de qualquer mágoa. E sorriu à mãe, como se lhe dissesse:

— No meu trono hei de tornar o teu canto tão alegre como as estrelas.

E tanta coisa mais ele pensou. Tanta coisa que não disse e a mãe sentiu.

E pela madrugada, sozinho, foi enterrar no quintal o pássaro morto: era a sua própria infância que ali ficava guardada, a blusa marinheira, os barcos de papel.

Daí para o futuro o pai diria: O meu rapaz! A mãe, quando cantasse, havia de ter um canto mais contente. Ele próprio já não sabia se era o José, se o Homem grande que lhe sorria no sonho, ao anoitecer, e lhe falara, quando ele sentira o coração da pedra onde deitara a cabeça e adormecera.

E, assim, Amigo, aqui finda esta história que não é de paz nem de guerra.

E assim finda esta história que não é de paz nem de guerra e, se não é uma história de Amor, que a Vida me perdoe…

Matilde Rosa Araújo
História de um rapaz
Lisboa, Livros Horizonte, 1986
(Adaptação)