Marcas e marcadores

livro borboletas 4 m

Há livros em que não me atrevo a usar marcadores de cartão.

São livros de poesia, na sua maioria, e outros que, embora escritos em prosa, me tocaram, [me tocam] de maneira especial.

Marcadores de cartão são sombra e pedra, artifícios que ferem a pele delicada das palavras.

É por isso que uso pétalas, muitas vezes, para marcar as páginas que me parecem mais perfeitas no momento em que as leio.

Arranjá-las, às pétalas, não é difícil, pois guardo sempre as que vão caindo das jarras e do jardim à medida que envelhecem.

Com o tempo, elas transformam-se em asas de borboleta e, por vezes, ao abrir um desses livros, por descuido ou desacerto das mãos, sou surpreendida por voos efusivos no gozo de uma  liberdade  inesperada.

Quando pousam, ao acaso, por aqui e por ali, recolho-as pacientemente, uma a uma, fazendo-as regressar aos seus lugares.

Não quero que as palavras que mais amo desaprendam o céu e se ponham, de súbito, a morder o chão.

Lídia Borges

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