Bonecas

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A avó tinha uma amiga, “Chiquinha”, a quem costumava visitar e com quem tomava chá, frequentemente. Eu não gostava quando a avó dizia, em jeito de aviso: – hoje vamos às Gavieiras, visitar a Chiquinha.

As Gavieiras, hoje, Avenida 31 de Janeiro, era uma das zonas mais bonitas da cidade, moradias novas, tílias a debruar os passeios largos, uma luz quebrada, diferente da de outras zonas da cidade mais expostas ao sol de verão. (Será que era sempre verão, naquele tempo?) 

Que arrelia! Deixar o pátio, os gatos, ir ficar “quietinha” na sala das bonecas, da casa da Chiquinha.  – Não mexas em nada, não interrompas as conversas, fala só se te perguntarem alguma coisa. Ah, e não te esqueças de dizer “obrigada”, quando for caso disso – repetia a avó, de cada vez que a visita se consumava. Levava-me pela mão, no percurso, não muito longo, que separava a Rua das Oliveiras, onde morávamos, e a referida “Gavieiras”.

A casa da Chiquinha era uma espécie de “país das maravilhas”, fosse eu Alice. Desde os reposteiros com frondosos roseirais de cores pastel até aos folhos engalanados a forrar poltronas, sofás, cadeiras; das almofadas e almofadinhas até às louças orientais, estatuetas de santos, terços e um sem-número de bugigangas, cobrindo quase por completo o tampo dos móveis, tudo era (des)arrumação de museu.

Permitam-me aqui um aparte: tivesse eu os requintes estilísticos de Eça e seria capaz de descrever estes atafulhados espaços que tenho na memória, como ele descreve a “Toca” de Os Maias, no dia do acalorado encontro de Carlos Eduardo com a bela Maria Eduarda, quando o incesto não é ainda incesto. A “Toca” com seus primorosos dourados, os “amarelos excessivos”, para não falar da coruja de “olhos agoirentos” ou, da tela com a  cabeça de João Baptista na bandeja, “ainda a escorrer sangue”. Perdoem-me, a avó e a Chiquinha, estejam onde estiverem, (por certo a tomar chá), senhoras recatadas e virtuosas, por este meu tão estouvado deambular, mas, efetivamente, falta-me alguma perícia lexical para descrever aquele ambiente com cheiro a creolina, naftalina e santidade. Resumindo, séc. XIX, levemente adulterado.

Eu não gostava quando a Chiquinha, com seu rosto miudinho de pardal e óculos na ponta do bico, dizia – Vai, vai brincar com as bonecas, Livinha, enquanto eu converso com a avozinha. – “Obrigada” – dizia eu.

As bonecas da Chiquinha tinham olhos que viam. Eram vaidosas e presumidas com seus vestidos e chapéus de rendas, sedas, tules e tafetás. Não tocava em nenhuma delas. Parecia estarem sempre a dizer – Não queremos brincar contigo, não queremos brincar contigo!

Eu ficava sentada numa cadeira de braços, abanando as pernas, (creio que abanava as pernas), olhando para elas e elas para mim, sem dizerem nada. E eu também não dizia nada.

– Ela gosta é das bonecas da Chiquinha – disse a avó ao meu tio/padrinho por altura do meu aniversário. Onde terá ido a avó buscar aquela malfadada ideia?

De maneira que, quando fiz sete anos, recebi uma boneca de porcelana, com olhos que veem e vestido e chapéu de renda, sedas, tules e tafetás. – “Obrigada” – disse eu.   Ainda bem que depois de ter ficado uns momentos com ela ao colo, a avó disse que era melhor guardá-la para quando eu crescesse mais um pouco, não fosse quebrar-lhe a carinha ou os bracinhos de loiça.

 ***

Do que eu gostava era das bonecas de trapos, sempre a rir, com grandes tranças de lã,  que a mãe fazia no sanatório, lá longe, e mandava para mim, pelo pai.

Lídia Borges

 

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