Os mortos justificados

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Demoliram o país de Ahmed.
Erro de construção, justificaram.
Os pilares assentavam numa fé errada.

Debaixo do teto
se abrigavam famílias,
velhos, meninos, mulheres.

Todos tinham o mesmo nome,
o nome daqueles que não têm nome.

O país ruiu,
ante bombas e tanques,
prova de que não estava bem dimensionado.
Os pombos escaparam,
os pobres não.
Que culpa têm os demolidores
de haver tanta gente viva?

Dos que sobraram
não se escutam lamentos.
Os moradores choram na língua errada.

Entre os escombros,
um braço de menina
ousa a culpa: de que valia ser criança
se não dava uso à infância?

Erro de cálculo na engenharia
falta de sustentabilidade ambiental,
inviabilidade financeira:
o auditor da comunidade internacional,
encerrou o file no lap-top
e suspirou, aliviado: felizmente,
a maior parte dos países
nunca chegou a existir.

Mia Couto

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