O que fica no Olhar da Memória

chernobyl 1

A Boneca de Chernobyl

Tudo ficou como estava. Tudo foi deixado para trás. Quando as autoridades soviéticas deram ordem de retirada, já tinha passado um aparentemente calmo dia e meio desde o acidente nuclear. A deban­dada de toda a população das mais de 90 aldeias e vilas durou até dia 1 de Maio. O reator n.º 4, ao explodir à 1h23m e 58s da madrugada de sábado, 26 de Abril de 1986, libertou uma quantidade de mate­rial radioativo e vapor de água correspondente a uma potência de 90 vezes a bomba de Hiroxima. Hoje em dia, crê-se que a catástrofe aconteceu por uma conjugação de falhas técnicas do equipamento e de descuido humano no momento de desligar o reator, num procedimento de rotina e manutenção.

Esta boneca ficou. Está aqui, im­óvel, desmembrada e cega há 27 duros invernos. E assim vai continuar, intocável, porque os valores de radiação que subsis­tem no solo de Chernobyl não o permitem.

Tirei a foto no recreio da escola primária de Chernobyl e fiquei ali, a olhar, naquele silêncio pesado do lugar, imaginando uma história para esta boneca. É nestes momentos que os reló­gios parecem que param, per­dem os ponteiros dos segundos, arrastam-se descoordenados sem nexo de tempo. De nada vale, somos mesmo pequeninos.

Se esta boneca falasse, talvez fosse curiosa e quisesse meter conversa e saber de mim, eu que venho de longe. Talvez me perguntasse por onde andará a menina que, a correr, lhe fugiu, certamente puxada pelos pais naqueles últimos dias de Abril de 1986. Na verdade, a logística da evacuação até foi rápida, mas o tempo perdido no processo de decisão expôs a população à radiação.

As quase duzentas mil pessoas que foram deslocadas do perímetro de radiação, incluindo a criança que deixou esta boneca para trás, não se sabe onde andam ao certo. Os que ainda estão vivos estão espalhados pela Ucrânia, pela Bielorrússia e por outros territórios da antiga União Soviética. Eu também perguntei baixinho, a ver se a boneca sabia. Nada ouvi. Será que a criança ainda está viva ou foi uma das vítimas mortais? Terá sido uma das que sofreram e morreram com leucemia, em consequência da exposição a essa radiação nos dois dias seguintes ao acidente? Nessa altura, as autoridades tentavam esconder e minimizar o que já sabiam, apesar de não se ter noção exata da dimensão da catástrofe humana que ali se estava a desenvolver e das suas implicações nas gerações futuras.

O Mundo ficaria a saber, nessa altura, o que já conhecia em teoria: as centrais de energia atómica só são seguras enquanto nada de anormal acontece. São armadilhas perigosas.

Sabes, boneca esquecida, as Nações Unidas já calcularam um número redondo para as consequên­cias de Chernobyl. É apenas um número, mas as pessoas e o sofrimento não são números. Mesmo assim, assusta. Dizem que, até agora, há pelo menos nove mil mortes provocadas por cancro que estão diretamente associadas a Chernobyl. Mas digo-te mais, boneca abandonada: mais duro ainda nessa análise dos números é o relatório da organização ambientalista Greenpeace, que estima que, com o passar dos anos (até meio século), o número de vítimas supere as 93 mil. Mas os que sobre­vivem afetados pelas várias doenças colaterais resultantes da radiação dos dias que se seguiram estão estimados em mais de 200 mil a quem roubaram expressão de felicidade e saúde.

Esqueceram-se de ti, boneca, estás impregnada de radiação atómica. A posterior operação de limpeza das aldeias evacuadas num perímetro de 40 kms, que incluiu o abate de todos os animais vivos – mais de meio milhão de porcos, galinhas, cavalos, vacas, bois, cães de companhia – envolveu 600 mil pessoas durante meses, militares, bombeiros, pessoal técnico, caçadores contratados, talvez habitantes esperançados no regresso, que será provavelmente adiado por gerações – há quem diga que serão precisos quatro séculos para a terra voltar a ser sã. Em redor de Chernobyl estão identificadas zonas mais perigosas, onde ficou por remover ou limpar mais de 180 toneladas de material radioativo.

Esta boneca sem olhos nem braços nem uma perna obrigou-me a essa paragem de minutos não contados, disse-me tudo naquele olhar vazio no tempo, enquanto espera que o ciclo se complete. Dentro de dias chega a neve aparentemente pura. Ela de branco frio se cobrirá e esconde por uns meses, até que chegue a Primavera fingida de alegria.

Mas pode ser: pode ser que outro visitante repare na boneca perdida e consiga meter conversa, perguntando na sua mu­dez pela sua dona, a criança que fugiu a correr, deixando tudo para trás, até uma vida!

Lá segui na viagem silenciosa para uma cidade-fantasma. Despedi-me baixinho da boneca que lá ficou, intocável. Talvez espere que a criança volte para a apanhar (não lhe quis dizer que não, para enganar a ilusão). Se for viva essa criança, terá uma vaga memória do brinquedo de companhia que deixou na fuga aflita neste recreio da escola.

Como eu gostaria que esta história tivesse final feliz! A criança traquina talvez tenha escapado! Talvez seja uma jovem mãe ucraniana (calculo eu, com uns 34 anos) que nunca mais regressou porque as feridas, quando estão abertas, doem muito mais.

As visitas a Chernobyl são hoje uma atração turística muito controlada, em grupos pequenos e muito inspecionados. Só com marcação, 100 euros por bilhete, passaporte na mão e guia contrat­ado, sempre munido de um sensor de radiação. Há vários controlos militares e é possível chegar a escassos metros da central acidentada e até do sarcófago que está a ser montado e que vai proteger o planeta das fugas de radiação, pelo menos, durante um século. A central continua a ex­pelir para a atmosfera níveis baixos de radiação, problema que ainda está por resolver. Chernobyl merecia outro epílogo menos triste.

Viagem ao poiso do silêncio dorido

Chegar às avenidas largas de Pripyat e parar é coisa estranha: ninguém está lá para nos dar indi­cações de percurso. Não há vivalma. Tirar fotos é mais estranho ainda: tudo faz lembrar um filme de terror que se vai enleando a nós à medida que aquele silêncio se apodera de todo o espaço. As árvores há muito que não são podadas, diria: asseadas para quem chega, crescem sem regra nem aquela disposição ordeira e geométrica que faz os jardins. Aqui a natureza vinga-se do es­paço que lhe foi roubado.

As árvores são o único sinal de que há disfarce de vida nesta cidade. As de fruto renovam-se no ciclo natural, como se nada se tivesse passado. Os frutos amadurecem e caem naquele chão contaminado até que a ordem natural de reabsorção se faça eterna. Ninguém lhes mexe, porque são veneno, apesar do aspeto apetitoso das maçãs que vi. O que foi o relvado do estádio de futebol, hoje, é um pequeno bosque. Uma veg­etação bem instalada e com terreno de sobra.

Tudo foi crescendo onde menos se espera, tal como no meio do salão de baile do centro cultural desta terra. Numa fresta da parede da receção do hotel onde a água do degelo do In­verno vai correndo, há um arbusto que cresceu e resiste sem que se perceba como. Mais estranha ainda é aquela árvore que não me sai da cabeça, aquela que me chamou porque cresce com raiva entre umas grades, fazendo como que uma aposta sobre quem ganhará no fim. Para já – vi eu –, ganha a árvore: amarrou o ferro de tal maneira que, apesar de forte e imóvel, já não respira nem mexe, asfixiou, e dali só vai sair em pedaços.

São árvores altas e esguias, mas doentes. Não se devem se­quer cortar, porque são radioativas, tal como as que crescer­em nos séculos mais próximos.

Eu, que gosto de ver filmes e imaginar argumentos, sinto aqui, ao captar uma foto, um drama. É como se cada ima­gem, ao ser guardada, pudesse registar o que os meus olhos não vêem, os fantasmas que por aqui andam. São registos estáticos que guardam, sem que eu saiba, movimentos suaves naquele ruído estranho de uma baixa frequência impercetível que me dá uma ideia da vida que por aqui passeou.

O que me fica de Pripyat é o silêncio, que é pesado. Apetece fechar os olhos no momento de “clic” para, de rompante, os abrir outra vez e encontrar gente, os sons, os gritos das crianças, um carro que passou. Eu gostava de reconhecer as vidas dos que planearam daqui nunca sair porque a cidade era nova, perfeita e ordenada.

O que lhes digo é que ouvir este silêncio faz mesmo doer. Era uma cidade com 50 mil habitantes, construída de raiz para acolher grande parte das famílias dos técnicos vindos de toda a Rússia para a construção e funcionamento das 4 centrais de Chernobyl (o projeto era para construir dez ao longo de década).

Quando se deu a explosão, a cidade tinha pouco mais de dez anos de plena atividade (começou a ser construída em 1970 e foi concluída em 1979). Era tudo novo e cheio de projetos. Havia um estádio, uma estação de comboios, um hospital, maternidade e milhares de crianças. Quinze escolas primárias, cinco liceus, uma escola de artes e um politécnico. A média de idades dos habitantes rondava os 30 anos.

A cidade estendia-se por quilómetros de terra plana e fértil. Eram 160 prédios de apartamentos com até dez andares.

Aos habitantes felizes deste lugar, num domingo pela tardinha (dia 27 de Abril) disseram apenas e com pressa que deveriam abandonar as casas por uns dias, talvez três, levassem apenas um saco e algum dinheiro e que deveriam deixar janelas fechadas e eletrodomésticos desligados das tomadas. Ninguém mais voltou. Pripyat ficou para trás, uma cidade maldita e envenenada para a eternidade. 

De olhos bem abertos para não esquecer

Ficou tudo tal qual estava. O carrossel abandonado é uma imagem simbólica do esquecimento da região de Chernobyl (da roda gigante, lá mesmo no cimo, via-se toda a cidade).

Com ferrugem e a perder a cor, de um amarelo-vivo, nem este carrossel ajuda a dar alegria à paisagem. É um cenário tétrico porque, na longa pausa dos anos, parece continuar à espera dos meninos para mais uma volta, mais uma corrida.

Não houve sequer tempo para estacionar os carrinhos, ficaram ali em transgressão no circuito de brincar. Quantos rodopios eles deram, entre risadinhas de namoradas que se agarravam, a medo, ao braço de condutores destemi­dos naqueles choques que faziam deles ases do volante em pista pequena! As crianças de Pripyat tinham a roda gigante à espera e não puderam brincar. Tinham escolas-modelo, livros novinhos em folha e tudo deixaram, até mesmo os trabalhos de casa por fazer, numa caligrafia perfeita, sem rasura nem hesitação. Ficou assim pousado na mesa em mais reparos do professor.

Em 86, fugiram com pressa, cumprindo as ordens de um regime que poucas explicações lhes deu, escondendo a ca­tástrofe enquanto puderam do país e do mundo. Vivia-se a Guerra Fria, todos tinham uma máscara para se proteger de ataques terroristas do capitalismo. A ironia da história fez com que essas proteções de ataque atómico inimigo, máscaras por estrear, ficassem espalha­das no chão da escola até hoje.

O pavilhão gimnodesportivo vai resistindo à intempérie. Os Invernos, por aqui, são duros, seis meses de neve, com temperaturas até aos 15 graus negativos, mas a corda de ginástica é das duras, continua pendurada no pavilhão de Pripyat. Baloiça com o vento, mas não cai.

Fiz as contas, e calculo que, no dia 25 de Abril de 1986, comemorávamos os 12 anos da nossa revolução e nesta corda estariam pendurados pela última vez uns jovens gina­stas russos. Desde então ela nunca mais sentiu a força de alguém, e resiste.

Guardei para o fim a imagem que gostava que me ajudasse a enganar quem vê. Subindo ao topo do hotel, entrando num quarto abandonado, cria-se a ilusão de um écran que projeta uma cidade normal e com vida própria. Pura ilusão: a vida foi arrancada a Pripyat de re­pente, como se arranca pele. É como se essa pele da cidade, maltratada e com feridas, iludisse alguma vida, mas por dentro já nada circula, não existe o sangue quente das gentes que fazem este corpo mexer-se com dinâmica.

A radiação que por aqui pairou espalhou-se pela Europa, chegou longe e prolongou-se no tempo. Tanto tempo que, hoje ainda, há 330 quintas no norte de Inglaterra que têm os seus terrenos interditos à agricultura. Tal como este perímetro proibido de ter vida nos 40 kms em redor do reator 4. É uma herança dura para a minha, a nossa e de cinco ou seis gerações vindouras.

Experimentem ficar em silêncio uns minutos. Fechem os olhos e vejam o pior que podem imagi­nar de espoliação, de angústia duradoura talvez eterna.

 Nota final:

Uns anos depois do acidente, Mikhail Gorbatchov, na transição para a Perestroika, mandou con­struir a uns 100 kms da zona de radiação uma nova cidade. Chama-se Slavutich. Alguns dos habitantes de Pripyat foram alocados nessa nova cidade, esperando um regresso que jamais ac­ontecerá. Muitos outros morreram com a memória desta cidade envenenada e triste.

Só para que saibam, há jogos da PlayStation que se passam neste cenário e o último filme de Bruce Willis, o “Die Hard 5”, foi em parte rodado aqui. É um lugar muito contaminado, mas com passagem breve e bem acautelada não representa grande perigo para o viajante. Não se deve tocar na vegetação, não nos devemos encostar a muitos dos edifícios, muito menos mexer em equipamento que foi aqui abandonado.

Quem passa por aqui deixa um bocadinho de memória triste do caminho que o mundo leva. Este é o percurso que nos leva a Chernobyl, vazio e sem fim à vista.

Mário Augusto

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