Responsabilidade

anne coração f

Era eu uma caloira na faculdade quando conheci os White. Embora fossem completamente diferentes da minha família, senti-me de imediato à vontade com eles. Jane White e eu ficámos amigas na escola, e a família dela recebeu-me a mim, uma estranha, como se eu fosse uma prima há muito desaparecida…

Na minha família, quando algo de mal acontecia, havia sempre que pôr a culpa em alguém.
— Quem fez isto? — gritava a minha mãe quando havia algum desastre na cozinha.
— É tudo culpa tua, Katherina! — insistia o meu pai quando o gato fugia ou a máquina de lavar avariava.
E assim, quando éramos pequenos, e quando nos portávamos mal uns com os outros, eu e os meus irmãos tínhamos sempre à mesa um lugar à espera: um lugar chamado “Culpa”.
O mesmo não acontecia em casa da família White. Quando algo de menos bom acontecia, não se preocupavam com quem tinha feito o quê. A pessoa em questão arrependia-se, e juntos apanhavam os cacos e continuavam com as suas vidas.
Só me dei conta da importância deste procedimento no verão em que Jane morreu.

O Sr. e a Srª. White tinham seis filhos: três rapazes e três raparigas. Um dos filhos tinha falecido ainda na infância, e talvez fosse por isso que os restantes irmãos se mantiveram sempre tão unidos. Em julho, as irmãs White e eu decidimos fazer uma viagem de carro da Flórida até Nova Iorque. As duas mais velhas, Sarah e Jane, eram alunas da faculdade, e a mais nova, Amy, tinha feito recentemente dezasseis anos.
Orgulhosa detentora de uma carta de condução novinha em folha, Amy estava entusiasmada por poder praticar nesta viagem. Assim, as irmãs mais velhas partilharam a condução do carro novo de Sarah durante a primeira parte da viagem mas, quando chegaram a zonas menos povoadas, deixaram que Amy assumisse o volante.
Algures, na Carolina do Sul, saímos da autoestrada para comer.
E, depois do almoço, Amy manteve-se ao volante. Algum tempo depois, chegámos a um cruzamento. E para nós havia um sinal de stop. Talvez estivesse nervosa ou apenas distraída, ou pura e simplesmente não tivesse visto o sinal… nunca o soubemos. Mas Amy avançou sem parar, e o condutor de um enorme trator com reboque, incapaz de travar a tempo, entrou pelo nosso carro dentro.
Jane teve morte instantânea.

Eu sobrevivi ao acidente com apenas algumas pisaduras. Mas nunca esquecerei como me foi penoso ter de telefonar aos White, contando-lhes o acidente e a morte de Jane. Por mais doloroso que fosse para mim perder uma boa amiga, eu sabia que era bem pior para eles perder uma filha!
Quando o Sr. e a Srª. White chegaram ao hospital, encontraram as suas duas filhas sobreviventes no mesmo quarto. A cabeça de Sarah estava envolta em ligaduras; a perna de Amy estava engessada. Abraçaram-nos a todas e choraram. E enxugaram as lágrimas das raparigas.
Às suas duas filhas, especialmente a Amy, eles disseram simplesmente:
— Estamos felizes por estarem vivas.
Fiquei atónita. Nenhuma acusação. Nenhuma culpabilização.
Mais tarde, perguntei-lhes porque é que eles nunca falavam do facto de ser Amy quem ia a conduzir e de ter passado um sinal de stop.
E a Srª. White disse-me:
— A nossa filha Jane partiu e nunca poderemos dizer por palavras a dor que sentimos. Mas nada do que dissermos ou fizermos a trará de volta. Já a Amy tem toda uma vida pela frente. Como poderá levar uma vida feliz se sentir que nós a culpamos pela morte da irmã? Já basta o que sente no seu interior e que ela nunca esquecerá!

E tinham razão.
Amy formou-se e casou-se há vários anos. Trabalha como professora de alunos com dificuldades de aprendizagem. É também mãe de duas meninas, e a mais velha chama-se Jane.
E foi assim que aprendi com os White uma bela lição de amor: culpar os outros não serve para nada. Apenas os mergulha numa maior escuridão.

Kathy Gale

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