Atendimento personalizado

jake olson pai filho m

 — Desisto! — disse o meu filho mais novo, atirando a enorme chave inglesa para o chão.
— Parece que não escolhi a melhor altura para ver como iam os consertos — disse eu a brincar.

Chris tinha estado a tentar substituir a embraiagem do velho buldózer do pai, que tinha avariado mesmo antes de ele terminar de limpar algumas árvores demasiado grandes do nosso terreno.

— O pai dava sempre a impressão de que os trabalhos mecânicos eram tão simples — comentou.
— Alguma vez o viste colocar uma embraiagem neste buldózer? — perguntei.
— Vi, quando tinha seis anos.

O meu marido tinha morrido de cancro uns anos antes e Chris tinha assumido as tarefas do pai na nossa quinta de pinheiros de Natal. Dos nossos cinco filhos, era o único que sempre tinha adorado trabalhar com o pai ao ar livre, sobretudo se houvesse equipamento pesado envolvido. Assumir as tarefas do pai parecia ter minimizado, para Chris, a dor daquela perda tão repentina.

— Se quiseres parar por agora, vou fazer o jantar enquanto tomas um duche — sugeri.
Sempre achei que um bom jantar e uma noite de sono descansada ajudam a ver a vida de outra maneira.

Na manhã seguinte, Chris desceu as escadas a correr e passou por mim sem se deter, enquanto eu fritava ovos com presunto.
— Onde vais com tanta pressa? — perguntei. — Nem sequer tens tempo para tomar o pequeno-almoço?
— Volto já, mãe — disse.

Reparei que se dirigia a toda a pressa para o buldózer avariado. A diferença de atitude em relação ao dia anterior devia-se, por certo, a uma solução que lhe tinha ocorrido.

Decidi deixá-lo em paz durante uma boa hora. Sabia que se sentiria mais frustrado se fosse observá-lo a trabalhar. Tomei o pequeno-almoço e arrumei tudo antes de ir buscar os ovos e dar de comer às galinhas.

— As coisas estão mais tranquilas hoje? — gritei para Chris, quando o vi sair de debaixo do buldózer.
— Muito melhor — gritou de volta. — Conto-te já tudo.

Fiquei aliviada por o ver tão animado. Cerca de uma hora mais tarde, ouvi o meu filho entrar pela porta traseira. Apressei-me a entrar na cozinha onde Chris já se servia de uma chávena de café.
— Descansa um pouco, mãe, e deixa-me servir-te um pouco de café — sugeriu, com um sorriso.

Sentámo-nos à velha mesa de carvalho da nossa cozinha.
— Porque sorris? — perguntei-lhe. — E porquê a pressa desta manhã?
— Tinha de ver se o pai tinha razão.
— De que estás a falar?
— Vi o pai ontem à noite.
— Viste quem?
— Acordei durante a noite e vi o pai deitado no sofá do meu quarto. Estava vestido com a velha camisa de xadrez azul e branca e tinha o boné de beisebol vermelho inclinado sobre a testa. Começou a falar comigo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Disse-me, “Chris, há um parafuso difícil de encontrar debaixo da correia de transmissão e tens de o tirar.” Explicou-me todos os passos que tinha de dar de forma clara. Se não fosse ele, nunca saberia como reparar o buldózer.

— Contaste-lhe que estavas a ter dificuldades com a avaria? — perguntei, verdadeiramente fascinada pelo que estava a ouvir.
— Não, ele parecia já saber. Aliás, eu nem sequer falei. Foi ele que disse tudo.
— Perguntou por mim?
— Não, só me disse como reparar a viatura. Depois adormeci e, quando acordei, já não estava lá.
— Sentes que o pai estava mesmo à tua beira?

O meu filho pensou um pouco antes de responder:
— Nunca acreditei em ver espíritos e fantasmas, mas tenho a certeza de que estava acordado. E também sei que não encontraria a solução para o problema do buldózer se o pai não ma tivesse dado. O parafuso estava tão bem escondido que nunca o teria descoberto sem a pista dele. Contudo, não sei explicar ao certo o que aconteceu.

Nenhum de nós poderia alguma vez explicar com toda a certeza o que acontecera. Todavia, sei no meu íntimo que, se o Chris precisava de ajuda, não havia nada que o pai não fizesse para lha dar.

Connie K. Pullen
(Tradução e adaptação)