A Menina Rumphius

foto flores pinheiros 1 m

A Senhora Tremoceiro vive numa pequena casa sobre o mar. No meio das rochas que circundam a casa crescem flores azuis, roxas e cor-de-rosa. A Senhora Tremoceiro é pequenina e tem muita idade. Mas nem sempre foi assim. Sei-o porque ela mo disse. É a minha tia-avó.

Em tempos que já lá vão, ela era uma menina chamada Alice e vivia numa cidade junto ao mar. De lá de cima conseguia ver os cais e os mastros altivos dos grandes navios. Muitos anos antes, o seu avô tinha ido para a América num desses barcos enormes.

Agora, ele trabalhava na loja que ficava no piso térreo da casa a fazer figuras de proa e a esculpir índios de madeira para colocar à entrada das lojas de charutos. O avô da Alice era um artista. Também pintava quadros de navios e de lugares além-mar. Quando estava muito ocupado, a Alice ajudava-o a pintar os céus.

À tardinha, a Alice sentava-se ao colo do avô e ficava a ouvir-lhe as histórias de lugares distantes. Quando terminava, a Alice dizia sempre:
— Quando for grande, também quero visitar esses lugares e, quando for velhinha, hei de viver junto ao mar.

— Tudo isso está muito certo, Alicinha, — dizia-lhe o avô — mas há uma terceira coisa que tens de fazer.
— E o que é? — perguntava a Alice.
— Tens de fazer alguma coisa para tornar o mundo mais bonito — respondia o avô.
— Está bem! — dizia a Alice.

Mas, em boa verdade, não sabia o que é que havia de fazer.
O tempo foi passando. A Alice levantava-se, lavava a cara e comia papas de aveia ao pequeno-almoço. Ia para a escola, vinha para casa e fazia os trabalhos de casa.
E, em breve, tornou-se numa mulher.

Depois, a minha tia-avó começou a fazer as três coisas que tinha prometido ao avô.
Saiu de casa e foi viver para outra cidade, longe do mar e do ar salgado. E foi trabalhar para uma biblioteca: limpava o pó aos livros, mantinha-os ordenados e ajudava as pessoas a encontrar os livros que desejavam. Alguns livros falavam-lhe de lugares longínquos.

As pessoas agora tratavam-na por Menina Rumphius. Por vezes, ia até ao jardim botânico que ficava no meio do parque. Sempre que lá entrava num dia gelado, o ar quente e húmido envolvia-a e o cheiro doce do jasmim inebriava-a.
— Isto faz-me lembrar uma ilha tropical — dizia a Menina Rumphius — mas não exatamente.

Por isso, a Menina Rumphius foi a uma ilha tropical a sério, onde era normal as pessoas terem catatuas e macacos como animais de estimação. Caminhou ao longo de extensos areais e apanhou conchas lindíssimas.

Um dia, conheceu Bapa Raja, o rei de uma aldeia piscatória.
— Deve estar cansada — disse. — Venha a minha casa e descanse.
A Menina Rumphius aceitou o convite. Em casa de Bapa Raja, conheceu a sua mulher. Prontamente, Bapa Raja foi buscar um coco verde e cortou-lhe um dos topos para que a Menina Rumphius pudesse deliciar-se com a água de coco. Antes de se ir embora, Bapa Raja deu-lhe uma bela concha de madrepérola onde tinha pintado uma ave-do-paraíso e as seguintes palavras: “Ficarás para sempre no meu coração.”
— Também ficará no meu para sempre! — disse a Menina Rumphius.

Assim, a minha tia-avó Alice Rumphius escalou montanhas muito altas, tão altas que a neve nunca derretia. Atravessou densas florestas e desertos. Viu leões a brincar e cangurus aos saltos. E em qualquer lado fazia amigos que nunca havia de esquecer. Por fim, chegou à Terra dos Lotófagos. (1)

Uma ocasião, ao descer de um camelo, magoou-se nas costas.
— Mas que tolice a minha! — disse a Menina Rumphius. — Bom, uma coisa é certa: visitei muitas terras distantes. Talvez esteja na hora de encontrar o meu lugar junto ao mar.
E estava. E encontrou.

Do alpendre da sua nova casa, a Menina Rumphius via o sol nascer, depois atravessar o céu e cintilar nas águas e por fim pôr-se com solenidade no final do dia. Começou por fazer um pequeno jardim no meio das rochas que circundavam a casa, e semeou algumas flores no chão pedregoso.
E sentia uma felicidade quase total…
— Mas ainda há uma coisa que eu tenho de fazer — dizia. — Tenho de fazer alguma coisa que torne o mundo mais belo. — Mas o quê? O mundo já é tão bonito! — pensava enquanto contemplava o mar.

Na primavera seguinte, a Menina Rumphius não se sentiu muito bem. Doíam-lhe outra vez as costas e teve de ficar deitada a maior parte do tempo.
As flores que tinha semeado no verão anterior tinham nascido, apesar do chão pedregoso. Conseguia vê-las da janela do quarto: azuis, roxas e cor-de-rosa.
— Tremoceiros! — dizia a Menina Rumphius com alegria. — Foram sempre as minhas prediletas, as flores de tremoceiro. Oxalá consiga semear mais este verão para ter mais flores ainda no ano que vem.
Mas não conseguiu.

Depois de um inverno rigoroso, a primavera chegou novamente.
A Menina Rumphius sentia-se muito melhor.
E voltou aos seus passeios. Uma tarde, subiu à colina onde já não ia há muito tempo.
— Não posso acreditar no que estou a ver! — exclamou quando chegou lá acima.
O outro lado da colina estava atapetado de tremoceiros azuis, roxos e cor-de-rosa.
— Foi o vento! — disse, ajoelhando-se de comoção. — Foi o vento que trouxe as sementes do meu jardim até aqui. E os pássaros também devem ter ajudado.
Foi então que a Menina Rumphius teve uma ideia maravilhosa. Foi a casa, consultou o catálogo de sementes e encomendou cinco alqueires de sementes de tremoceiro.

Durante todo o verão, a Menina Rumphius, com os bolsos cheios de sementes, caminhou pelos campos e promontórios a semear tremoceiros. Espalhou sementes pelas bermas das estradas e dos caminhos de terra batida. Atirou-as às mãos-cheias à volta da escola e na parte de trás da igreja. Lançou-as para dentro de buracos e ao longo das paredes de pedra. As costas já não lhe doíam.
Algumas pessoas começaram a chamá-la de “Velha Maluca”.

Na primavera seguinte, havia tremoceiros por toda a parte. Campos e colinas estavam cobertos de flores azuis, roxas e cor-de-rosa. Cresciam nas bermas das estradas e dos caminhos de terra batida. À volta da escola e na parte de trás da igreja, as flores haviam formado tapetes coloridos. Dos buracos e das paredes de pedra nasciam lindas flores.
A Menina Rumphius tinha feito a terceira coisa, a mais difícil de todas!

A minha tia-avó Alice, a Menina Rumphius, é agora muito velhinha. Tem o cabelo todo branco. E todos os anos há cada vez mais tremoceiros. Agora chamam-lhe a “Senhora Tremoceiro”. Às vezes, os meus amigos e eu paramos junto ao portão da casa, cheios de curiosidade em ver a velhinha que encheu os campos de tremoceiros. Quando nos convida para sua casa, entramos devagarinho. Eles acham que é a mulher mais velha do mundo… E conta-nos, muitas vezes, histórias de lugares muito distantes…

— Quando for grande, — digo-lhe — também eu irei visitar terras longínquas e depois voltarei para viver junto ao mar.
— Isso está tudo muito certo, Alicinha, — diz a minha tia-avó — mas há uma terceira coisa que tens de fazer.
— E o que é? — pergunto.
— Tens de fazer alguma coisa para tornar o mundo mais bonito.
— Está bem! — respondo.
Mas ainda não sei o que possa ser.

[1] Na mitologia grega, os Lotófagos eram um povo que vivia numa ilha perto do Norte de África. O seu nome advém de se alimentarem das flores e frutos da planta de lótus, existente nessa ilha em quantidade apreciável.

Barbara Cooney
Miss Rumphius
New York, Puffin Books, 1982
(Tradução e adaptação)

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